Vai vestir essa fantasia?

Na terça-feira, o Ministério da Saúde lançou a nova campanha de prevenção da aids, que começou a ser veiculada dias antes do carnaval e será estendida, neste ano, até a Copa do Mundo. O objetivo é tentar alertar a população, principalmente os mais novos, sobre a importância do uso do preservativo.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

02 Março 2014 | 02h03

Aí é que começam alguns problemas. Nos últimos anos tem se percebido uma queda no uso de preservativos entre os jovens. De alguma forma, eles percebem menos riscos no sexo. Assim, o uso na primeira relação (um dos indicadores de adesão ao método) já é, logo de início, mais baixo. Depois, à medida que eles prosseguem na vida sexual, a taxa de uso consistente (usar em todas as ocasiões) cai ainda mais. Caso eles se engajem em uma relação mais estável, em pouco tempo a camisinha pode não sair do fundo da gaveta.

Quando existe alguma preocupação em relação ao sexo, ela gira muito mais em torno da questão da prevenção de uma gestação indesejada do que de uma doença sexualmente transmissível. Não existe, de forma muito clara, a percepção de risco imediato de contaminação.

As explicações, mundo afora, têm sido várias. Uma geração que está mais distante das fases críticas da epidemia, em que se via muita gente doente e morrendo (até mesmo ícones da cultura pop); a percepção de que existe tratamento e controle caso haja contaminação; a perda de espaço para o assunto aids na grande mídia; as campanhas de prevenção por tempo limitado; programas de discussão de saúde sexual e sexualidade precários nas escolas; e a dificuldade de acertar o "alvo" ao falar com o público jovem, além do uso mais pesado de álcool e drogas na noite e nas baladas, o que acaba diminuindo ainda mais as chances de eles se cuidarem.

E aí a estratégia de se fazer uma campanha genérica e pontual pode tropeçar. Para começar, com a migração do interesse dos jovens das plataformas e mídias mais convencionais de comunicação (TV, por exemplo) para meios digitais mais portáteis, seria importante que a mensagem "invadisse" esses aplicativos e interfaces de forma mais duradoura. Além disso, uma campanha focada na população geral, de cara, sofre uma resistência por parte dos adolescentes, que podem "ler" a mensagem como sendo careta e quadrada. Talvez fosse importante ter parte da campanha que "falasse" diretamente com esse público.

Depois há outra questão de foco. Um dos olhos do furacão está hoje na população dos garotos jovens que fazem sexo com outros homens. De acordo com pesquisas recentes, nos grandes centros, a prevalência de HIV nesse grupo pode chegar a quase 20% (isso mesmo, quase um em cada cinco ou seis jovens). Na população dos jovens como um todo, esse índice gira em torno de 0,5%. Será que esse público específico não mereceria um esforço concentrado?

No início de 2014, a Fundação Bill e Melinda Gates anunciou um novo prêmio de US$ 1 milhão para projetos efetivos no desenvolvimento de tecnologias mais atraentes para as camisinhas (materiais mais finos, confortáveis, resistentes, etc). Os incômodos provocados pelas camisinhas seriam, para os técnicos da Fundação, a grande barreira ao uso regular. Não seria o caso de direcionar parte desse investimento para estratégias de educação e comunicação que trabalhem a importância da adesão ao uso de preservativo?

Outro fenômeno ainda pouco estudado é o de determinados grupos, entre os mais jovens, que seguidamente correm mais riscos (bebem mais, experimentam mais drogas, se protegem menos no sexo). Haveria questões culturais ou sociais, traços de personalidade ou sintomas psíquicos (autoestima, ansiedade, transtornos do controle dos impulsos, compulsão), que fariam esses jovens se arriscar mais?

No horizonte, mais alguns obstáculos para a camisinha. Com a ampliação do tratamento para a aids e, em teoria, com menos vírus circulando, será que essa percepção do risco não cairá ainda mais? A profilaxia pós-exposição (uso de remédio por um mês, que deve ser iniciado até 72 horas depois da relação suspeita) para quem fez sexo sem proteção em determinados grupos não pode causar também impacto no uso da camisinha? Algo semelhante ao que a pílula do dia seguinte causa no uso da pílula convencional? Para além do carnaval e da fantasia, há ainda que se investir muito nesse campo!

É PSIQUIATRA

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