'Vai,'Vem' e 'Amor' seguem no topo das letras do samba

5 das 10 palavras mais usadas por compositores de Rio e SP em 2012 continuaram em alta neste ano

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2013 | 02h02

Se o folião acha que as letras cantadas neste carnaval nos sambódromos de Rio e São Paulo foram repetitivas, não está de todo errado. Das dez palavras mais usadas por compositores no ano passado, cinco permaneceram no topo neste ano, apesar da variação nos temas. E, entre essas cinco, quatro são comuns à Sapucaí e ao Anhembi.

Não importa se o enredo é sobre mangalarga marchador ou Mazzaropi. As palavras "vai", "vem", "vou" e "amor" aparecem entre as dez mais nos dois anos, tanto no carnaval paulistano quanto no do Rio. Completam a lista de presença no topo do ranking, tanto em 2012 quanto em 2013, "coração", no Anhembi, e "sou", na Sapucaí.

Músico e professor do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), Walter Garcia não vê a repetição como algo totalmente ruim. "Ela existe na cultura popular porque é um elemento que ajuda na memorização das canções. Canções de tradição oral têm muitas repetições."

Ele faz uma ressalva. "O outro lado é que a indústria cultural usa muito a repetição também no processo de padronização, banalização. É uma vertente que promove a repetição como um slogan, como a propaganda faz, para martelar na cabeça."

Mestrando em Música pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Yuri Prado afirma que há um processo de padronização poética e também melódica nos sambas desde os anos 1990. "É uma questão de afirmação do gênero ou um processo de engessamento? Acho que são as duas coisas. Um campo semântico que foi estabelecido, mas também uma falta de ousadia maior por busca de outro procedimento poético e melódico." Prado diz que, por ser um gênero popular, o samba tem um forte respeito às tradições.

nuvem de palavras sambas-enredo

Cantada. Um processo de conquista. É assim que Martinho da Vila enxerga o "bicampeonato do amor" nos sambas paulistanos, seguido pela presença constante de "coração" entre as palavras mais faladas no Anhembi nos últimos dois carnavais. "O compositor de São Paulo ainda está incentivando os componentes, as pessoas, a amarem sua escola. Por isso usa essas palavras. No Rio, ele já se acha o cara. Fala 'chegou a Vila', 'chegou a Portela', 'vou'", explica. Em suma: na Sapucaí, o samba é cantado em primeira pessoa, na visão de um morador do Rio.

A Unidos de Vila Isabel trouxe, neste ano, parceria de Martinho e Arlindo Cruz: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um. Martinho diz que, para vencer as disputas internas, que definem qual será a letra a embalar o carnaval, os compositores "apelam" para influenciar o componente por sua relação com a agremiação. "Alguns parecem até uma exaltação à própria escola, mais do que um samba-enredo."

Mas Martinho também vê mudança nos últimos anos. "No passado, os sambas-enredo tinham palavras quase comuns. A tendência era uma exaltação ao enredo, à história. Tinha palavras típicas, como deslumbrante, maravilhoso, Brasil."

O sambista diz que tenta evitar lugares-comuns ao compor. "Quando a gente tem parceiros e tal, algumas coisas ainda caem lá", diz. Só em Devagar, Devagarinho, a primeira palavra é repetida 23 vezes. / COLABOROU AMANDA ROSSI

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