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Vacinas e médicos

Na última semana, o Ministério da Saúde aprovou a inclusão da vacina contra o HPV no calendário oficial de imunização, já a partir de 2014. A vacina protege contra o vírus que provoca verrugas na região genital, causa uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns hoje no mundo, é responsável pelo câncer de colo de útero, além de ter relação direta com câncer de pênis, borda anal e garganta. Em tempos de início precoce da vida sexual, principal via de transmissão do HPV, a medida é um avanço importante na proteção.

JAIRO BOUER,

07 de julho de 2013 | 02h05

Em um primeiro momento, a vacina estará disponível no SUS apenas para garotas de 10 e 11 anos, fase em que elas ainda não foram expostas ao vírus por via sexual. Três doses são necessárias para a proteção, que até então estava disponível apenas na rede particular, ao custo de quase R$ 1 mil. Nos últimos anos, algumas cidades, como Brasília, se anteciparam à decisão do ministério e bancaram a vacinação.

O Instituto Nacional do Câncer estima quase 18 mil novos casos de câncer de colo de útero e cerca de 5 mil mortes, por ano, no Brasil.

Apesar do custo elevado do método para o sistema público de saúde (o governo deve pagar cerca de R$ 30 por dose), parte do acordo prevê que o fabricante transfira tecnologia para que o País passe a produzir a vacina nos próximo anos, o que possibilitaria que mais pessoas fossem vacinadas. Muitos países já autorizaram a vacinação de mulheres não apenas dos 9 aos 26, como preconizado inicialmente, mas até os 45 anos. Evidências acumuladas mostram que os homens jovens também podem se beneficiar da proteção.

No fim de junho, uma pesquisa divulgada pelo Centro de Controle de Doenças, em Atlanta, EUA, mostrou que o número de adolescentes americanas infectadas pelo HPV caiu pela metade desde que a vacinação foi iniciada por lá, apesar de apenas um terço das jovens ter recebido as três doses completas, desde 2006. Segundo o centro, esse resultado pode ter sido alcançado pela imunidade em massa (que reduz a circulação do vírus) e pela eficácia do método (que talvez confira algum grau de proteção, mesmo sem as três doses completas).

Também veio dos EUA, recentemente, a notícia que o ator Michael Douglas, que lutou contra um câncer de garganta em 2010, admitiu que seu tumor havia sido provocado pelo HPV. A detecção desse tipo de câncer em pacientes mais jovens, principalmente homens, mostra que pessoas que fazem sexo oral com múltiplos parceiros, sem a devida proteção, podem estar expostas à doença, que antes era detectada apenas em pacientes mais velhos com longa história de exposição ao cigarro e ao álcool. São quase 8 mil casos por ano nos EUA.

Na contramão desse acerto, a última semana também foi marcada por protestos contra a "importação" de médicos estrangeiros, sem a devida prova de validação, que vem sendo defendida pelo governo como forma de melhorar a saúde do País. Erro! Mais médicos não garantem necessariamente mais e melhor saúde.

O buraco está muito mais embaixo. Sem melhorar as condições de trabalho para o médico e profissionais de saúde nas regiões mais distantes do País, sem investir na formação e atualização desses profissionais, sem pensar em um plano de carreira, vai ser difícil fixar alguém em municípios carentes de atenção à saúde. Trazer quase 10 mil médicos, sem testar seus conhecimentos, seu nível de destreza, sua habilidade com a língua, pode trazer ainda mais problemas para a população, além de colocar esses profissionais em diversas situações de risco. Sem suporte, a distância e carentes de recursos básicos, que milagre poderá ser feito?

Que tal dar garantias de equipamento, trabalho e segurança para os médicos daqui? Capacitar enfermeiras, farmacêuticos e outros profissionais para triagens e atendimentos mais básicos? Fazer com que alunos e residentes na área de saúde das faculdades e fundações federais, estaduais e municipais façam um estágio obrigatório nesses municípios? Por que não pensar em um sistema mais integrado com os grandes centros e em tecnologias que não deixem o profissional abandonado? Pode apostar que tudo isso teria um impacto muito maior do que tentar puxar um tapete curto para cobrir um buraco grande. Muita gente pode cair nessa!

 

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