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Vacina e medo

Em 2007, a Austrália iniciou a vacinação gratuita contra o vírus HPV para as meninas de 12 a 18 anos. Na semana passada, um artigo do jornal The New York Times revelou uma queda de 61% na ocorrência das verrugas genitais nas mulheres jovens (de 15 a 27 anos) daquele país, de acordo com pesquisa publicada na edição de setembro da revista científica PLOS One.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2014 | 02h02

O trabalho mostra que, nas demais faixas etárias e sexo não cobertos pelo programa de vacinação, os índices das verrugas genitais seguiram inalterados. O resultado aponta para a eficácia e o sucesso de um programa extenso e gratuito de vacinação na população-alvo contra o vírus HPV, que, além de causar as verrugas genitais (uma das DSTs mais comuns), tem relação direta com o câncer de colo de útero e com outros tipos de câncer relacionados à atividade sexual - pênis, ânus e orofaringe.

Há duas semanas, o Brasil iniciou a segunda etapa de vacinação contra o vírus HPV. A primeira dose havia sido dada seis meses antes, entre março e abril de 2014, para garotas de 11 a 13 anos. A terceira dose, no esquema de vacinação proposto pelo Ministério da Saúde, estará disponível para essas garotas daqui a 5 anos. Em 2015, será a vez de garotas de 9 a 11 anos serem vacinadas. Em 2016, aquelas a partir de 9 anos receberão a proteção.

Muito se falou na semana passada sobre a reação à vacina que foi constatada em 11 garotas que receberam a segunda dose, no dia 4 de setembro, em uma mesma escola estadual em Bertioga, na Baixada Santista. Elas apresentaram mal-estar após a aplicação. Oito foram levadas ao pronto-socorro e liberadas em seguida. Três foram internadas para investigação. Duas delas tiveram alta na quarta-feira, sem nenhuma sequela, e uma seguia internada até sexta-feira. Ela se queixava de alteração de sensibilidade nas pernas, dores no corpo e dificuldade de locomoção.

Os exames neurológicos feitos descartaram paralisia ou dano neurológico nas garotas vacinadas. De acordo com Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, não houve problemas com armazenamento ou refrigeração do lote usado em Bertioga. A hipótese mais provável até agora, reforçada pelo secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, é de uma possível resposta psicogênica ao estresse de ser vacinada.

Curiosamente, essa resposta pode ser potencializada quando acontece dentro de um mesmo grupo. Uma garota sente-se mal ao receber a vacina - em geral, por medo do procedimento - e as demais ficam impressionadas com o ocorrido, podendo apresentar sintomas semelhantes.

Efeitos. Em agosto, um episódio envolvendo mais de 200 garotas em El Carmen de Bolívar, uma cidade no norte da Colômbia, pode ter tido a mesma causa. Elas começaram a apresentar sintomas como desmaios, dormência, tonturas, dores de cabeça e formigamentos. Para quem já trabalhou em emergências médicas, ver esse tipo de sintoma, após um momento de estresse, é relativamente comum. A maior parte das garotas colombianas, de forma semelhante ao que aconteceu em Bertioga, estudava em um mesmo colégio. Na ocasião, o ministro da Saúde do país falou em uma "reação psicogênica em massa" e desvinculou os casos de uma reação adversa à vacinação contra o HPV.

Na própria Austrália, em maio de 2007, logo depois do início do programa de vacinação, 26 de 720 garotas vacinadas de uma mesma escola tiveram exatamente os mesmos sintomas. Não foi encontrada nenhuma base orgânica para o quadro clínico. Quatro das meninas precisaram ser levadas para um hospital da região e depois foram liberadas.

Tanto uma avaliação da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicada em março de 2014, como o parecer do Centro de Controle de Doenças de Atlanta (CDC), nos Estados Unidos, de agosto de 2014, atesta a segurança do método. Já foram aplicadas mais de 180 milhões de doses da vacina no mundo todo e os benefícios são evidentes!

É PSIQUIATRA

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