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Vacina de HPV para eles

Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Melbourne (Austrália) mostrou que adolescentes gays têm risco aumentado de contrair o vírus HPV, causador das verrugas genitais e ligado a alguns tipos de câncer. Os resultados reforçam a importância de expandir a vacinação contra o HPV para jovens de ambos os sexos, segundo os especialistas.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2014 | 02h06

Desde o início do ano passado, a Austrália adotou um programa de vacinação contra o HPV, custeado pelo Estado, que passou a incluir os garotos entre 12 e 13 anos. Os pesquisadores acreditam que esse modelo deveria ser adotado por outros países.

Nos EUA, o Centro de Controle de Doenças (CDC) de Atlanta passou a recomendar a vacinação para os garotos em 2011. Em 2012, 21% deles tinham recebido pelo menos uma das doses. Entre as garotas (a vacina está disponível desde 2006), o índice inicial de cobertura foi de 25% para uma dose e, em 2012, atingiu 54% delas. Apenas um terço das meninas recebeu as três doses recomendadas.

Em Melbourne, 200 garotos adolescentes (16 a 20 anos) que fazem sexo com outros homens foram avaliados e se encontrou uma prevalência maior do vírus HPV entre eles, o que, em teoria, os coloca em maior risco de desenvolver, no futuro, um câncer na região do ânus, de forma semelhante ao processo que pode levar ao câncer de colo de útero nas mulheres. A diferença é que, entre elas, existe o hábito consolidado de visita periódica ao ginecologista para realização de exame preventivo (Papanicolau).

Como a vacina deve ser recebida, de preferência, antes do início da vida sexual, os especialistas argumentam que é difícil prever qual a futura orientação sexual dos jovens. Para eles, todos os garotos deveriam ser protegidos. Esse procedimento de vacinação reduziria, também, a chance de o jovem heterossexual se contaminar com o vírus e transmitir o HPV para as futuras parceiras, o que teria impacto no número de casos de verrugas genitais e de câncer do colo de útero. Estudos recentes têm relacionado o HPV também com um maior risco de câncer em pênis e orofaringe (boca e garganta) em populações com múltiplos parceiros, independente da orientação sexual.

Pela relação direta do HPV com o câncer de colo de útero (um dos tipos de câncer que mais matam mulheres nos países em desenvolvimento) e, por ser ele o responsável por uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo hoje, muitos países recomendam a vacinação não apenas para as mais jovens, mas para todas as mulheres que têm vida sexual ativa. Alguns trabalhos do fim do ano passado apontam que mesmo uma dose única talvez já tenha efeito protetor e duradouro contra o vírus. A verificar!

O Ministério da Saúde no Brasil começa a tornar disponível vacina para as garotas de 11 a 13 anos a partir de março, com planos de expansão para a população de 9 a 11 anos em 2015. Os garotos ainda não estão nos planos de vacinação gratuita no SUS. As vacinas também podem ser encontradas nas principais clínicas privadas, mas seu custo ainda é elevado. Para as três doses preconizadas para a proteção, os pais devem desembolsar cerca de R$ 1,5 mil, o que limita o alcance da proteção.

É lógico que na Austrália, que, apesar de ter extensão territorial semelhante ao Brasil possui pouco mais de 10% da nossa população, é mais fácil pensar em um esquema de cobertura vacinal bancado pelo governo. Um dos grandes desafios aqui, além de convencer os pais da importância da proteção (só vão ser vacinadas as garotas que tiverem autorização dos responsáveis), será desenvolver a produção da vacina em larga escala e a um custo mais baixo (uma parceria do laboratório que produz a vacina está prevista com o Instituto Butantã), para que sejam produzidas doses suficientes para proteger a maior parte da população alvo, em curto espaço de tempo.

Nesse sentido, evidências apontam que o Ministério da Saúde deverá olhar com mais atenção para a parcela masculina da população jovem.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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