Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

Vá jogar assim lá no campinho da várzea

Os peladeiros se profissionalizaram. E a Copa Kaiser movimenta hoje até 100 campos da metrópole e mil times. Conheça a história de quatro deles, de norte a sul da cidade

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2011 | 00h00

Eram 9h de um domingo sem graça e chuvoso e a laje do Sérgio, na periférica Vila Guacuri, já estava repleta. A movimentação e a ansiedade da diretoria se justificavam: o jogo das 13h era decisivo. O Pioneer (a pronúncia é piôner), campeão invicto de 2010, enfrentaria o Jardim das Palmas no campo do Anhanguera, em Santo Amaro, para permanecer na disputa do título da Copa Kaiser. Pode parecer banal para quem está acostumado com Paulistão, Brasileirão, Libertadores, Mundial, mas o campeonato, em sua 14.ª edição, movimenta até 100 campinhos de várzea por fim de semana e quase mil times entre a série A, a B e o acesso. Esse universo da bola que não dá manchete virou alvo da Expedição Metrópole.

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A garoa e o friozinho não esvaziaram o campo do Anhanguera. Senhores, homens, meninos e algumas poucas mulheres - as que não quiseram ficar em casa zangadas com seus maridos - tomavam sua cervejinha enquanto esperavam pelo jogo. Na casa de Sérgio Ricardo Silva, de 34 anos, presidente do Pioneer há 15, no limite com Diadema, a diretoria cuidava dos últimos preparativos. (A laje de Sérgio nem é a sede do Pioneer, que fica no Bar do Bagaço e tem sua subsede no Samba da Biquinha.)

Diretoria peculiar a dos times de várzea. No Pioneer, que completou 30 anos em junho, são 17 dirigentes. Fu e Bigode são diretores dos kit-lanche, distribuídos aos jogadores, com bombons, uma mexerica e bolachas, consumidos antes mesmo de o jogo começar. Axé e Fu são também responsáveis pelo busão que leva a torcida da comunidade ao campo e pelos cartazes no alambrado.

Silva é o cartola-mor. Extracampo, ele é sócio de uma empresa que administra restaurantes de museus e teatros de São Paulo, como o Masp, a Sala São Paulo e o Teatro Municipal. É daí, garante, que sai a verba para sustentar o Pioneer, hoje um dos times com mais estrutura da várzea paulistana. "Para sermos campeões em 2010, investi, por baixo, R$ 150 mil." Campeões invictos e ainda levaram o título nacional, disputado em Belo Horizonte. "Decidi que seríamos campeões e corri atrás", diz Sérgio, corintiano pleonasticamente fanático.

Da extrema zona sul à norte, num boteco sem nome na Freguesia do Ó, o miúdo seu Juca vende pacotinhos de Ebicen e doses de Cynar e quase desaparece entre os troféus do Danubio, um dos mais tradicionais da cidade. Seu Juca, ou Joaquim Marques, de 70 anos, é o presidente de honra do clube. Nascido em Pera do Moço, na Guarda, em Portugal, veio para o Brasil em 1950, aos 11 anos, e mudou-se com a família para a Freguesia. Quando o Danubio foi fundado, em 1968, passou a jogar pelo clube.

Seus filhos, Renato, Ricardo, Ronaldo e Rogério, comandam o clube, que foi campeão da série A em 2007 e da B em 2010. Os quatro trabalham em uma empresa de ônibus e investem até R$ 10 mil por mês na várzea. "Distribuímos 300 lanchinhos por jogo, tanto para os jogadores quanto para a comunidade", conta seu Juca, que, patrioticamente, torce para a Portuguesa. A grana vem também da venda das camisas azul e branca, a R$ 50. A grande rivalidade é com o Vida Lôka, do Jd. São Luís, zona sul. Ao contrário de quando seu Juca começou, o Danubio hoje tem apenas quatro jogadores da vizinhança - os outros são contratados e recebem entre R$50 e R$100 por partida. "A várzea hoje é muito disputada, a gente teve de se profissionalizar", justifica seu Juca, no balcão que é ponto de encontro da vizinhança.

A Copa Kaiser premia com latinhas de cerveja e divide os times por zonas em suas primeiras fases. Pioneer segue na briga pela zona sul; Danubio já caiu pela oeste. E lá num canto da leste, num terrão desses que ilustrariam o termo num dicionário, cercado por favelas, o Boa Esperança, bicampeão da série A em 1996 e 2000 e campeão da B em 2009, já foi eliminado e segue o ano apenas mantendo sua escolinha para 120 meninos da comunidade. "Somos um time operário. Pago a chuteira de uns jogadores, a gasolina de outros, é tudo no amor", explica Alberto de Almeida Sena, o Betão, de 37 anos, técnico do clube desde 1996.

Eles perderam seu campo para uma Cohab que será construída na área e ganharam outro da Prefeitura ao lado de um córrego e ainda sem alambrado. Com pouco dinheiro e, por isso, com um time com 50% dos jogadores da região, ficou difícil. "Levantamos a cabeça e vamos esperar as próximas copas", diz Betão, também corintiano, assim como os fundadores do clube, criado em 1981.

Verba. É delicado falar em patrocínio e verba na várzea. O senso comum é de que o tráfico de drogas alimenta vários clubes - e todo mundo já ouviu falar de algum que recebe dinheiro do crime, mas não o seu time. "Aqui não tem disso, não", garante Nilton Amorim, de 39 anos, palmeirense, fundador e presidente do Leões da Geolândia, da zona norte, sentado sob a pichação "A boca é nossa" na parede de sua padaria. O Leões revelou jogadores como Elias (ex-Corinthians) e Vágner Love (ex-Palmeiras) e também já caiu fora da Copa Kaiser. É um dos caçulas da competição, foi fundado há 11 anos, depois que o médico recomendou a Nilton que jogasse futebol de salão para melhorar de sua bronquite. "Melhorei, fui para os campinhos e montei o Leões", lembra.

O Leões é a prova de que aquela ideia de que na várzea estão os pernas de pau não é tão exata. Nem todos viram Elias ou Vágner Love, mas ela também tem seus craques. O Porpeta, goleiro do Danubio, foi o menos vazado em 2007 e 2010. O França, do Pioneer, é vice-artilheiro da atual edição. O Boa recentemente negociou o garoto Matheus, de 13 anos, cuja mãe é cega e o pai está desempregado. E assim vai.

Se é incontestável que a Copa Kaiser profissionalizou a várzea - muitos dos campinhos nem de terrão são mais -, é difícil imaginar que a efervescência entre os amadores diminua. "A várzea mesmo, aquela mais pegada, não morre, porque sempre vai ter um time que quer chegar à Copa Kaiser, brigando nos campeonatos regionais", acredita Nilton. E porque, convenhamos, sempre vai haver um grupo de marmanjos dispostos a bater uma bola no fim de semana. Em tempo: o Pioneer venceu o jogo por 4 a 1.

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