Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Usuários migram para a Cantareira

Dezenas de dependentes de crack se instalaram em barracos montados no meio da floresta

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2012 | 03h05

Logo no início da Serra da Cantareira, uma mata que separa casas de R$ 1 milhão e barracos do Jardim Elisa Maria, na zona norte de São Paulo, virou refúgio para dezenas de usuários de crack expulsos de uma favela vizinha. Eles vivem no mato há pelo menos três meses, em lonas erguidas às margens de um córrego.

Assustados, moradores do condomínio Parque Itaguaçu da Cantareira colocaram seguranças particulares para vigiar a mata ocupada pelos dependentes. O Estado entrou ontem na trilha que leva ao camping montado pelos dependentes. No meio da floresta, ao som dos passarinhos, os "noias" se retorciam com cachimbos na mão.

"Quero ficar em paz aqui no mato, assim minhas filhas e minha mãe sofrem menos. Elas não precisam me ver desse jeito", desabafa Fabrícia Lombardi, de 28 anos, expulsa da favela do Elisa Maria. Com cachimbo nas mãos, rosto sujo de terra e agachada dentro de sua lona, ela diz estar mais perto de Deus ali na mata. "A bandidagem não quer a gente por perto. Ninguém gosta de 'noia', né?", emenda a jovem.

Ao seu lado, o ex-camelô Salvador de Almeida, de 55 anos, conta já ter morado dois anos na cracolândia do centro de São Paulo. Há dois meses, trocou a Rua dos Gusmões pelo meio da Cantareira. "Dá bem menos vergonha e medo ficar aqui. Eu já tive emprego bom, tenho meus filhos que moram no interior, em Rio Claro. Não gosto de pedir esmola em semáforo", contou Almeida, que passa parte do dia catando papelão e ferro pelas ruas do Jardim Peri, ali perto.

Quando quer fumar crack, o ex-camelô volta para seu barraco na mata. "A gente pega umas pedrinhas lá na favela. O pessoal só não gosta que ninguém fique fumando nas vielas. O negócio é vender as coisas no ferro-velho, pegar o que tem de pegar para fumar e voltar para o mato bem quietinho", acrescenta.

Outro homem, de 43 anos, que se identificou apenas como Maciel, tinha fala articulada e contou ser professor da rede estadual de ensino. "Não moro aqui, venho só fumar um crack e curtir a natureza, qual o problema?"

No condomínio vizinho de alto padrão, separado apenas por uma cerca de arame da mata da serra, moradores relatam que a presença de grupos de dependentes químicos ali é recente. "O que nós temos feito é evitar que eles entrem no condomínio. Nunca houve essa comunidade do crack no meio da mata", conta Ricardo de Almeida Pimentel Mendes, de 54 anos, administrador do condomínio.

Rodoanel. O pedaço da mata da Cantareira no qual os dependentes construíram barracos vai sumir para a construção do Trecho Norte do Rodoanel. O traçado da estrada também vai desapropriar casas do condomínio Itaguaçu da Cantareira.

Por enquanto, porém, quase ninguém incomoda o grupo de dependentes que se instalou na mata.

Durante mais de três horas, as únicas pessoas que a reportagem viu passar pelo trecho onde estão os dependentes foram garotos que caçam passarinhos silvestres. Eles dizem que, dependendo da espécie, conseguem vendê-los no mercado negro por até R$ 2 mil. Dezenas de meninos com gaiolas e pequenos sacos de alpiste passam o dia à procura de periquitos e até de tucanos na Cantareira.

Polícia. Soldados do 47.º Batalhão da Polícia Militar retiraram os barracos e os dependentes do meio da mata há cerca de dois meses. A corporação também informou fazer constantes patrulhas no local, mas eles sempre acabam retornando. "A preocupação dos policiais é de que nenhuma nova moradia seja montada no trecho do Rodoanel, ninguém está muito preocupado com a presença dos viciados", critica uma moradora.

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