Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

USP usa máquina 3D doada pela Receita para pesquisa e ensino

Aparelho foi apreendido pela Receita Federal e agora é usado por alunos do Instituto de Ciências Biomédicas

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 09h17

Para estudar embriões, os alunos do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) usam modelos em 3D. Até pouco tempo, as peças ainda eram as importadas da Alemanha pela universidade na década de 1930. Há dois anos, porém, já é possível “fabricar” os próprios embriões – novinhos e mais modernos – dentro da instituição. Isso graças à doação de uma impressora apreendida pela Receita Federal à USP. 

“Temos um acervo de peças de embriologia, modelos de embriões que vieram para a universidade nos anos 30. São feitos de cera, borracha e estavam desgastados de tanto manusear”, conta o professor do ICB Fábio Siviero. Em 2016, ele pleiteou receber uma impressora de peças em três dimensões para recriar esses materiais. Conseguiu um dos equipamentos doados para a universidade. 

Produtos apreendidos pela Receita Federal, como a impressora 3D usada por Siviero e seus alunos, são aplicados em atividades de ensino, pesquisa e extensão. Em dez anos, a soma dos valores dos materiais doados pela Receita à USP chegou a quase R$ 14 milhões. Os equipamentos vão desde inaladores até instrumentos mais complexos, como aparelhos para tomografias e mamografias.

No caso de Siviero, a “nova fábrica” tinha, no início, apenas a proposta de recriar as peças antigas. Mas evoluiu. “Começamos a fazer modelos de células, de estruturas de tecidos. E, como começamos a ter mais estudantes com deficiência visual, já fizemos etiquetas em braile e material tátil”, diz o professor. 

Visualização

A ferramenta, explica ele, ajuda a visualizar conceitos aprendidos em sala de aula. “A lâmina do microscópio é sempre bidimensional. O aluno tem de transpor essa imagem para uma estrutura tridimensional. Alguns fazem isso com mais facilidade, outros menos. Ter um modelo físico que possa segurar em mãos normaliza a turma, faz todo mundo ter um passo mais rápido.” Para Siviero, foi uma surpresa conseguir a impressora. “Não esperava que tivesse um equipamento tão complexo (para doação).”

Tablets barrados dão vida a museu de anatomia

Diretor do ICB, o professor Luís Carlos de Souza Ferreira ajuda a direcionar as doações dentro da universidade. Segundo ele, os aparelhos já foram usados pelos hospitais da USP e até fora do Estado. “Vários equipamentos médicos foram enviados para uma unidade que o ICB tem na Amazônia e são usados para atendimento à população ribeirinha. São feitos atendimentos oftalmológicos, exames de sangue e parasitológicos”, explica. 

Mesmo materiais simples, como tablets, valeram. “Montamos um museu de anatomia, aberto à população de São Paulo. Cada peça do corpo humano tem um tablet com informações. Faz muito sucesso”, diz Ferreira. Outro exemplo foram cabelos apreendidos pela Receita e doados à Faculdade de Ciências Farmacêuticas, para estudar cosméticos. 

“Precisamos dar o destino mais nobre possível”, explica Luís Fernando Simonetti, chefe substituto do Serviço de Gestão de Mercadorias Apreendidas da Receita Federal em São Paulo. Os materiais doados, diz, são fruto de descaminho. “O produto é legal, não é proibido. No entanto, tentou-se burlar a Receita de alguma forma.” Segundo Simonetti, a destinação principal de mercadorias apreendidas é o leilão, mas há a chance de transferência para entidades sem fins lucrativos. 

Desafio

Além de aplicações imediatas, as apreensões de mercadorias também já serviram como recurso pedagógico. Estudantes de cursos de graduação e pós em áreas como Design, Engenharia e Química participaram de um desafio para dar a melhor destinação à carga de cigarros apreendida pela Receita. "Eles são incinerados, mas isso é custoso, não é o melhor destino", diz Eduardo Zancul, professor da Escola Politécnica da USP. 

Duas sugestões dos estudantes foram escolhidas como as mais promissoras. "Elas propõem a separação de materiais recicláveis de maneira mais automatizada, a reutilização de bitucas na forma de plástico e a compostagem do tabaco, que é bem complexa porque possui contaminantes. A ideia era aproveitar o cigarro inteiro, a caixinha, tudo", diz Zancul.

A aplicação das propostas ainda depende de recursos financeiros, mas só o processo com os estudantes já valeu. "Um dos objetivos era que alunos evoluíssem, aprendendo novas tecnologias. Em termos de formação de recursos humanos para a sustentabilidade foi muito bom."

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