USP restringe área para treinamento de atletas na Cidade Universitária

Administração quer concentrar esportes perto da raia olímpica; treinadores afirmam que acúmulo de ciclistas e corredores é perigoso

ANDRÉ CABETTE FÁBIO, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h00

A Universidade de São Paulo (USP) decidiu restringir a prática de esportes na Cidade Universitária, na zona oeste de São Paulo. A prefeitura do câmpus quer impor às assessorias esportivas que atuam na área a obrigação de treinar exclusivamente na Avenida Professor Melo Morais, que margeia a raia olímpica. Treinadores e atletas afirmam que a regra pode prejudicar a segurança e até impossibilitar a prática de corrida e de ciclismo por quem leva seu hobby a sério.

A norma vale até a criação de novas regras sobre a prática esportiva no câmpus - o que deve ser feito até o fim do semestre. O comunicado enviado às assessorias veta também o uso de áreas próximas das unidades de ensino e administração da universidade. A alegação é que as assessorias dificultam o acesso às unidades da USP e "em virtude de mutirões de manutenção e varrição na cidade".

Em uma época em que a cidade vive um boom de corridas de rua, com uma média de duas por semana, o câmpus acabou assumindo o papel de uma espécie de campo de treinamento informal da capital. A estimativa da Associação dos Treinadores de Corridas (ATC) é de que, por exemplo, as ruas arborizadas e com tráfego moderado da USP atraiam 10 mil corredores e 150 treinadores - só entre os afiliados à entidade - aos sábados.

A medida não atinge quem corre por conta própria em outras áreas do câmpus, só as pessoas que contratam assessorias. Elas têm o perfil do corredor que, mesmo amador, investe tempo e dinheiro no treinamento. Muitos viajam para maratonas em outros continentes mais de uma vez por ano. Elas acreditam que, com o aumento de pessoas na mesma área, aumente o risco de que os corredores se trombem ou sejam atingidos pelos que treinam ciclismo de alta velocidade.

Proprietário da assessoria Tavares, Luís Eduardo Tavares, de 45 anos, afirma que atualmente há 20 assessorias na área da raia olímpica. "Na Cidade Universitária, são cerca de 100. Se juntar todo mundo, aumentará o risco de acidentes", afirma.

Segundo assessorias consultadas pela reportagem, até o momento nenhuma medida prática foi tomada no sentido de fazer valer a restrição comunicada pela USP às assessorias no mês de março. A norma, no entanto, continua valendo no papel e é vista com apreensão. "Somos corredores de rua, e não é qualquer espaço que serve para corrermos longas distâncias. Mesmo os principiantes correm no mínimo 30 quilômetros por semana", diz Martha Dallari, vice-presidente da ATC.

Ronaldo Martinelli, de 39 anos, treinador e sócio-diretor da Fiveways Assessoria Esportiva, já trabalha na Cidade Universitária há 14 anos e diz que, se todas as assessorias esportivas forem confinadas numa única avenida, "será o caos". Sua empresa tem oito treinadores e leva de 60 a 120 corredores à USP aos sábados. "Sei que a administração quer o melhor para a USP e que é um lugar que precisa de mais organização, mas o sentimento é de insegurança. Começamos a pensar em alternativas, mas já treinamos lá há muito tempo", afirma Martinelli.

O treinador Marcos Paulo Reis, da Marcos Paulos Reis Assessoria Esportiva, receia pela falta de informação. "Tem de ver como eles estão pensando: se vão fechar outra avenida e se vai poder continuar parando carro na raia. Teria que ser uma coisa paulatina para ver se vai funcionar", afirma. / COLABOROU ARTUR RODRIGUES

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