USP mudou bônus sabendo que não alcançaria meta

Estudo obtido pelo 'Estado' mostra que porcentuais de inclusão de alunos de escola pública e pretos, pardos e indígenas propostos por Alckmin só seriam obtidos em 47 das 171 carreiras da universidade

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2013 | 02h05

A Universidade de São Paulo (USP) aprovou neste ano alteração no bônus em seu vestibular já sabendo que não alcançaria, no próximo ano, as metas propostas pelo governo do Estado nos porcentuais de matrículas de alunos de escolas públicas e de pretos, pardos e indígenas (PPI). Documento obtido pelo Estado mostra que, pelas simulações feitas pela USP, o quadro de inclusão não teria grande alteração: só 27% das 171 carreiras analisadas teriam 35% de aprovados de escola pública e 19% registrariam mais de 12,2% de PPI.

O estudo com as simulações foi produzido pela Pró-Reitoria de Graduação para servir como base para a deliberação do Conselho Universitário sobre inclusão. O órgão decidiu aumentar a bonificação para quem é de escola pública (até 20%) e criar bônus extra para PPI. A USP jamais apresentou as simulações, que foram obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação pela ONG Educafro.

As estimativas nas carreiras consideraram o novo bônus no resultado do vestibular para ingresso em 2012. Das 47 carreiras em que o porcentual de aprovados vindos do ensino público alcança ou supera 35% do total, 20 são de humanas, dez são licenciaturas e 5 de saúde. Dentre os 30 cursos de Engenharia analisados, só três chegam ao porcentual.

Segundo o cálculo, com dados de 2012, Medicina em São Paulo, por exemplo, alcançaria 35,4% de alunos de escola pública na primeira chamada. Já na simulação com resultados do vestibular de 2013, 26,9% dos convocados em primeira chamada teriam vindo de escola pública. O porcentual de alunos de PPI chegaria a 7,6% no curso.

Em toda a USP, os convocados de escola pública em primeira chamada subiriam de 25,3% para 28,9%. Enquanto os pretos, pardos e indígenas iriam de 6,2% para 7,8%.

Metas. A proposta do governador Geraldo Alckmin (PSDB), construída no ano passado em parceria com os reitores das três estaduais, era estipular metas fixas escalonadas de inclusão. A USP decidiu pela estratégia de aumentar a bonificação.

O estudo mantinha as metas parciais até 2018, que também estipulavam 35% de escola pública e 12,2% de PPI para 2014. A USP, entretanto, jogou para 2018 a meta de ter 50% dos alunos de escola pública entre os matriculados por curso.

O diretor da Educafro, frei David Santos, disse que o documento deixa claro que a inclusão não será efetiva com a mudança do bônus. "A USP usa dados científicos para tudo que faz, mas quando é para pensar em ações para pretos e pobres não usa dados científicos", diz.

Neste ano, 37,9% dos mais de 170 mil candidatos que devem fazer a Fuvest no próximo dia 24 são de escola pública. Morador de Brasilândia, na zona norte, o estudante Agnelo Santos, de 17 anos, não tem nenhum amigo ou parente na USP. Ele faz cursinho ao mesmo tempo em que termina o 3.º ano na Escola Estadual Cohab Brigadeiro Eduardo Gomes. "A gente sai da periferia, não tem nada no colégio e, ao mesmo tempo, tem um monte de playboy que está lá e não dá valor", diz ele, que tenta o curso de Geofísica.

Por meio de nota, o pró-reitor adjunto de Graduação, Paul Jean Etienne Jeszensky, informou que existe a disposição de mudar os mecanismos caso os resultados não sejam satisfatórios, mas ressaltou que "é prematuro" fazer conclusões.

Ele reafirmou que a USP nunca prometeu atingir metas imediatamente. "É um sistema complexo que deve ser cuidadosamente controlado e monitorado, tendo em vista as metas globais de longo prazo."No último vestibular, 28% dos matriculados na universidade eram de escola pública.

Mais conteúdo sobre:
uspinclusão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.