USP libera cargos dias antes de eleição

Medida que distribui vagas em unidades de ensino, institutos e museus foi criticada e vista como eleitoreira por candidatos a reitor

Bruno Paes Manso, Paulo Saldaña e Victor Vieira, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2013 | 02h05

Atualizado às 18h40.

Às vésperas da eleição do próximo reitor da Universidade de São Paulo (USP), a instituição anunciou a distribuição de cargos em unidades de ensino, institutos e museus. A medida, promovida pelo reitor João Grandino Rodas, foi criticada e vista como eleitoreira por candidatos ao cargo e observadores do processo eleitoral, que teve ontem seu primeiro estágio, com a consulta a alunos, professores e servidores.

A decisão, segundo interlocutores, vai atingir diretamente quem for eleito. Foi aprovada a distribuição de 537 vagas, para cursos aprovados nos últimos quatro anos, como, por exemplo, o de Engenharia da Politécnica na USP Leste. Neste total, ambém há cargos para reposição de aposentadorias, mortes e exonerações ocorridas desde junho, além das aposentadorias previstas até o fim de 2014 - quando Rodas já não estará no cargo. Neste ano, os gastos com pessoal já consomem mais de 100% do orçamento da universidade.

As vagas foram criadas por lei sancionada em maio de 2012. Além de previstos 700 cargos para expansão, foram autorizadas na época 1.955 vagas para substituição por aposentadoria, morte ou exoneração. O informe divulgado pela USP na terça-feira, 10, apontava que foram analisados os pedidos "referentes às 700 vagas de expansão, decidindo-se pela distribuição de cargos". A Assessoria de Imprensa da universidade esclareceu nesta quarta-feira, 11, que a comissão aprovou nesta semana a liberação de 537 cargos, dos 2.655 previstos pela lei (700 novos e outros 1955 de reposição). Do total, 1,1 mil vagas já foram liberadas até agora, mas a universidade não detalhou quantos eram novos cargos e quantos eram para repor saídas.

O presidente da Associação dos Docentes da USP (Adusp), Ciro Correia, vê com "preocupação" a nomeação ser feita a essa altura. "Se é para atender às necessidades da universidade, era melhor deixar para o próximo mandatário ou ter feito as nomeações há mais tempo", diz. "Vemos a atitude como enviesada pelo processo eleitoral."

Para o ex-reitor Roberto Lobo, o período pré-eleitoral exige cuidados. "Tomar medidas em véspera de eleição não é salutar, já que quem vai cumprir é o outro reitor. Como a USP não tem legislação eleitoral, como na política tradicional, ficamos sujeitos a medidas eleitoreiras." Em 1993, Lobo renunciou ao cargo por causa, segundo ele, da paralisia da universidade em épocas de sucessão.

Críticas. O ex-diretor da Poli e candidato à Reitoria José Roberto Cardoso estranhou a distribuição. "Quero acreditar que não há critério de troca de favores", diz ele, que aponta a realização de poucas reuniões do Conselho Universitário como um dos motivos de a iniciativa não ter ocorrido antes. O também candidato Hélio Nogueira da Cruz, que foi vice-reitor, disse que a decisão foi tomada em momento inadequado. "Caberia ao próximo reitor analisar os cargos a serem criados, com base no orçamento e na necessidade. A decisão conturbou o ambiente político."

Segundo o professor Wanderley Messias da Costa, candidato apoiado pelo atual reitor, as críticas não têm fundamento. "Não há motivo para contenção de gastos. Os orçamentos dos próximos anos já previam essas despesas para atender às demandas", argumentou. "Além disso, a decisão não é minha e os oito membros da comissão responsável estão fora de suspeita", completou. O quarto candidato, Marco Antonio Zago, não foi encontrado para comentar o caso.

De acordo com a USP, não haverá impactos no orçamento porque a liberação de cargos se dará gradualmente. Além disso, grande parte das vagas é para reposição - portanto, já há previsão na folha de pagamento.

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