Uso do Exército banaliza instituição, dizem especialistas

Estrategistas afirmam que Força Nacional de Segurança perdeu espaço a partir de 2º mandato de Lula

BRUNO PAES MANSO, VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2012 | 03h05

O uso recorrente das Forças Armadas em conflitos e distúrbios de rua nos centros urbanos brasileiros pode banalizar o papel do Exército e colocar em risco a população das cidades que recebem esses efetivos. A opinião é de estrategistas e especialistas ouvidos pelo Estado.

Para eles, a Força Nacional de Segurança, criada durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acabou perdendo espaço desde o fim do segundo mandato dele. A Força é formada por contingentes de policiais enviados de todas as Unidades da Federação, para atuar em momentos de emergência.

O protagonismo das Forças Armadas na invasão e ocupação do Complexo do Alemão, no Rio, foi um divisor de águas que consolidou essa mudança de postura. Durante o governo de Dilma Rousseff, segundo os especialistas, o Exército voltou a ser usado em excesso.

"Os soldados do Exército são treinados para aniquilar os inimigos e não para deter suspeitos e entregá-los à Justiça", diz o cientista político Alexandre Fuccille, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas (NEE-Unicamp) e professor da Faculdade de Campinas.

O ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, concorda. "A população acaba correndo risco diante de soldados que usam fuzis e não foram treinados para lidar com situações de tensão como essas."

Para Fuccille, a postura dos governos federal e da Bahia levou a uma sucessão de equívocos. Na análise que faz, em primeiro lugar, a negociação do governo baiano deveria evitar a deflagração de greve. "Se o governador não sabia dos riscos, deveria demitir o secretário de Segurança e o comandante da PM, que deveriam tê-lo avisado."

Em segundo lugar, iniciado o movimento, Fuccille defende que deveria ter sido mandada a Força Nacional de Segurança. "Agora que os erros ocorreram não há mais volta. É preciso acalmar os ânimos e evitar mais prejuízos."

Prontidão. Segundo o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, o governo colocou de prontidão todo o efetivo da Força Nacional de Segurança, de 10 mil policiais, para o caso de outros Estados deflagrarem movimentos semelhantes ao da Bahia. Por determinação da presidente Dilma Rousseff, as Forças Armadas também estão em alerta para intervir em todas as situações em que seja aplicada operação de garantia da lei e da ordem, como ocorre na Bahia.

"Não podemos aceitar em momento nenhum o abuso, atos de vandalismo, prática de crimes", disse o ministro Cardozo. "Isso é inaceitável dentro do Estado de Direito."

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