Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Uso de creolina em calçadas causa polêmica

Zeladores de Higienópolis e Santa Cecília dizem usar desinfetante de cheiro forte contra cães, mas há quem veja estratégia contra moradores de rua

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Quem anda pelas ruas de Santa Cecília e Higienópolis, na região central de São Paulo, fica incomodado com o forte cheiro de creolina nas calçadas. Zeladores de edifícios de alto padrão dizem usar o desinfetante para retirar odores de urina e de fezes de cachorros, mas alguns moradores e pedestres afirmam se tratar de uma estratégia para afastar os moradores de rua cada vez mais presentes na região.

À noite, o cheiro de creolina se espalha por ruas como Rosa e Silva, São Vicente de Paula e Maranhão. Para quem corre em volta da Praça Buenos Aires à noite, o odor do desinfetante nas calçadas dos edifícios vizinhos chega a tornar a prática esportiva insuportável. "Eu nem venho mais correr na praça por causa desse cheiro. Me dá dor de cabeça. Acho que é para afastar os mendigos que montam barracas de lona na frente dos prédios", diz a pediatra Carolina Macário, de 46 anos, moradora da Rua Pará.

Segundo a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, o uso da creolina na limpeza das calçadas não é proibido. Na internet, a limpeza de calçadas com o desinfetante é indicada por veterinários como forma de evitar que o odor da urina de um cachorro atraia outros para o local.

E é exatamente esse o argumento usado por três zeladores de prédios em Higienópolis ouvidos pela reportagem. "O cheiro atrai outros cachorros, que vão querer demarcar território no mesmo lugar. Com sabão o cheiro não sai, só com creolina. Não é nada contra morador de rua", diz Paulo Fortini, zelador de um edifício na Rua Maranhão. Segundo ele, os moradores dos 15 apartamentos do prédio concordam com o uso do produto.

Para Letícia Crasto Chacon, dona de uma loja na Rua São Vicente de Paula, os síndicos não admitem que, "no fundo", a creolina também ajuda a evitar os moradores de rua. "Funciona muito bem contra cocô de cachorro, mas também é conveniente contra os mendigos. Sou contra pelos dois motivos", diz.

Falta de albergues. Os zeladores admitem que o número de moradores de rua em Santa Cecília e de Higienópolis aumentou desde o fechamento de três albergues do centro, em um total de 1.400 vagas. Atualmente, eles se concentram embaixo do Elevado Costa e Silva, mas muitos circulam pelos bairros vizinhos.

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