Uso de civis em resgate será investigado

Segundo testemunhas, bombeiros deram lanternas para sobreviventes voltarem à casa e salvarem amigos; Brigada instaurou inquérito

O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2013 | 02h00

Os bombeiros que trabalharam no combate ao incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, na madrugada de domingo, podem ser responsabilizados por terem usado civis no resgate de vítimas - prática vetada pela corporação. Ontem, sobreviventes contaram à polícia que os agentes deram lanternas e máscaras para jovens voltarem e tentarem salvar amigos. A Brigada Militar instaurou anteontem inquérito policial militar para apurar erros tanto no resgate quanto antes da tragédia, na aprovação do plano contra incêndio do local.

Vinícius Montado Rosado, de 26 anos, foi um dos que conseguiram sair da boate, mas depois voltaram para tentar salvar amigos. Ele acabou morrendo. Sua irmã, Jéssica Rosado, de 24, está entre os sobreviventes e ontem contou aos investigadores ter visto seu irmão fora da casa noturna, sem ferimentos, apenas com o rosto preto de fumaça.

Jéssica confirmou ainda que bombeiros deram equipamentos para alguns jovens que quiseram participar do resgate na casa - ela não soube dizer se seu irmão também usava lanterna ou máscara.

A polícia tem fotos que mostram jovens ajudando soldados dos bombeiros a carregar mangueiras dos dois caminhões-pipa usados no incêndio. "Muitos civis participaram do socorro, isso foi relatado por várias testemunhas", afirmou o delegado regional Marcelo Arigony, responsável pelas investigações. "Eu não posso fazer juízo de valor sobre essa ação, sobre qual a responsabilidade da corporação. Essa responsabilidade será investigada agora no inquérito da Brigada e nós vamos passar para eles as informações que já temos."

O delegado se reuniu ontem com o comandante do Corpo de Bombeiros de São Leopoldo, coronel Vitor Hugo Konarzewiski, que vai presidir o inquérito. O coronel é especialista em materiais inflamáveis e ontem esteve na boate Kiss para uma primeira perícia.

Konarzewiski também quer saber como o Corpo de Bombeiros de Santa Maria concedeu alvará de prevenção a combate a incêndios para a boate se o recuo entre a saída e o fundo da casa era de 22 metros - a norma 90/77 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), ratificada em legislação estadual do Rio Grande do Sul, diz que a distância máxima entre o fundo de uma boate e sua saída deve ser de 20 metros.

Alvará. O coronel também vai apurar como a boate conseguiu o alvará da corporação já que faltava uma saída de emergência na casa durante a vistoria que antecedeu a licença, em agosto de 2011. Por isso, um dos primeiros a deporem no inquérito será o capitão do Corpo de Bombeiros de Santa Maria Alex da Rocha Camilo. Foi ele quem concedeu o alvará para a boate em agosto de 2011.

Camilo também vai ter de responder por que a corporação não fez nova vistoria para renovação do alvará da boate, cuja taxa foi paga pelos proprietários em outubro, dois meses e meio antes da tragédia. Se a vistoria tivesse sido feita, os bombeiros poderiam ter visto a espuma inflamável colocada irregularmente no teto da boate por um funcionário em agosto e que é apontada como a principal causa da propagação do incêndio.

Extintores. A vistoria também poderia constatar, na avaliação da Polícia Civil e do Ministério Público, que não havia extintores instalados na posição correta. Ontem, um cliente que foi à polícia mostrou fotos que provam que os equipamentos não estavam nas paredes onde deveriam estar.

Segundo Vanessa Vasconcelos, ex-gerente da casa, o proprietário Elissandro Spohr, o Kiko, retirava os extintores da parede por "questão estética". A versão foi confirmada ontem aos investigadores por Carlos Weber, dono da Previ, empresa que fazia manutenção dos extintores na Kiss. "Diversas vezes fui lá e não vi os extintores na parede, onde eles deveriam ficar."

Outro ponto que tem intrigado os responsáveis pela investigação é de que até agora o plano de prevenção contra incêndios que a boate teria de ter apresentado para o Corpo de Bombeiros para conseguir o alvará não apareceu. "Até agora ninguém nos forneceu esse plano que a boate teria de ter apresentado aos bombeiros", disse o delegado regional de Santa Maria.

"Nas mais de mil folhas que já recebemos da Prefeitura, dos bombeiros e dos donos da boate, não consta esse documento." / D.Z.

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