Uso de bombas e balas de borracha tem o aval de cúpula

Secretário e comandante afirmam que a utilização de armas não letais foi necessária para ‘restabelecer a ordem e direito de ir e vir’

Fabiana Cambricoli, Rafael Italiani e Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2014 | 22h17

Tanto o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, quanto o comandante-geral da Polícia Militar, Benedito Roberto Meira, afirmaram nesta sexta-feira, 12, que o uso da munição e de outras armas não letais, como bombas de efeito moral, na zona leste de São Paulo, foi necessário para restabelecer a ordem e o direito de ir e vir da população e do torcedor. 

“A polícia agiu corretamente. Usou força proporcional aos eventos e atos de violência para manter a ordem pública”, disse Grella, durante uma coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes, na zona sul. 

Há um ano, o secretário falou que a munição não seria usada em protestos. “A bala de borracha não foi empregada contra manifestantes, foi usada em um grupo que estava ali para praticar atos de violência, agressão e ameaça”, afirmou. Grella disse ainda que a PM garantiu o direito de ir e vir e não se pode “fazer julgamento” a partir das imagens. A investigação foi instaurada nesta sexta e será feita por meio de inquérito policial-militar (IPM).

Por volta das 13h40 de quinta-feira, a PM lançou bombas contra um grupo que tentava fechar a Radial. Quem protagonizou os confrontos com a PM (pelo menos seis entre 10h14 e 15h40) foram cerca de 50 black blocs e anarquistas, muitos participantes dos protestos de junho de 2013. Entre os 15 feridos nos confrontos, há cinco repórteres: as jornalistas da emissora americana CNN Barbara Arvanitidis e Shasta Darlington; o assistente de câmera do SBT Douglas Barbieri (os três por estilhaços de bomba); o jornalista argentino Rodrigo Abd, da agência de notícias Associated Press, e um repórter de uma equipe de TV francesa (por balas de borracha). 

Todos passam bem, mas a ação foi criticada por organizações de mídia, incluindo a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), que considerou “inaceitável que, a pretexto de conter protestos durante a Copa do Mundo, a polícia empregue métodos violentos contra jornalistas, impedindo-os de exercer sua função profissional”. Organizações internacionais também cobraram punições de quem se excedeu. “As autoridades brasileiras prometem que a inauguração do Mundial será uma celebração, enquanto a polícia reprime brutalmente manifestantes pacíficos em São Paulo”, afirmou a Anistia Internacional, em nota oficial.

Dificuldade. O comandante-geral da Polícia Militar, por sua vez, afirmou que as investigações de uso excessivo de força são difíceis. Segundo Meira, as vítimas não comparecem às audiências para fazer o reconhecimento fotográfico dos PMs. “Estamos buscando provas. Só que em determinados momentos depende da pessoa reconhecer (o policial).” 

Um capitão que comandava a operação de quinta será chamado para prestar depoimento. O oficial imobilizava um manifestante que, mesmo após render-se, recebeu borrifada de spray de pimenta nos olhos. “Ele tem condições de identificar quem foi o policial ”, disse Meira. 

Ele afirmou que balas de borracha foram usadas após PMs serem atingidos por um extintor. Ainda de acordo com Meira black blocs preparavam ali um coquetel molotov para atirar no carro do SBT.

Ideli. Em evento no Rio, a ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, destacou que os protestos foram “aquém das expectativas”, já que, somando todos os atos, “o número de manifestantes não ultrapassou 4 mil pessoas”. Mas fez ressalvas a ação policial na Radial Leste, em São Paulo. Segundo ela, há protocolos de ação para preservar o direito de manifestação. “Não é permitido, porém, depredação de patrimônio ou impedir a movimentação de outras pessoas.”

A ministra também comentou o processo de “higienização social” denunciado pelo Ministério Público. Perto da Copa, a prefeitura estaria retirando moradores de rua da região central. “Estamos mobilizados para impedir que ocorra.”

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