UPPs reduziram mortes e fizeram subir preços

O barraco de madeira e teto de lona de Antonia Cerqueira Lima, de 64 anos, no alto da Favela Dona Marta, tem uma faixa na parede: "Favela modelo de quê?". O local fica a pouco mais de 200 metros da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), a primeira instalada no Rio, em 2008. Antes, a região era ponto de desova de corpos pelo tráfico. "Passava com minhas duas netas e cobria os olhos para não verem", afirma Antonia, cozinheira aposentada que chegou ao local há 45 anos, vinda da Bahia.

RIO, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h02

Em todo o Rio, já são 28 UPPs - a meta é chegar a 40 em 2014. Desde 2008, não há homicídios na favela. Segundo pesquisa do Laboratório de Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), houve redução de 78% na taxa de mortes violentas por cem mil habitantes, considerando homicídios, autos de resistência e latrocínio. Mas moradores reclamam da truculência da polícia.

Para o pesquisador da Uerj Luiz Antonio Machado, que também assina um dos artigos do livro, UPPs funcionam como uma "policialização das políticas sociais", o que reforça a segregação nas favelas. "Ela coloca a atuação da polícia no centro da discussão, o que já é um avanço. Torço para que isso signifique um desafogo do medo e o início de medidas mais dialógicas."

O aumento do custo de vida, a especulação imobiliária e a verticalização são outros problemas. Em quatro anos, sobrados de dois quartos no Morro Dona Marta valorizaram 112% - e a procura continua subindo, principalmente por estrangeiros.

Para a pesquisadora Letícia Luna, também organizadora do estudo, o enobrecimento de favelas é acelerado pela especulação decorrente de grandes eventos. Para ela, a maior das mudanças na favela em 50 anos é simbólica - discursos mudaram, velhas práticas continuam. "A favela tem uma complexidade enorme, comércio forte, produção cultural intensa. O desafio é assumir essa diversidade e enxergá-la como espaço de coexistência, em que todos têm direitos iguais." / A.P.

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