Tasso Marcelo/AE
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UPPs abrigam circuito gastronômico

Contando só com a divulgação boca a boca, 8 restaurantes em favelas pacificadas do Rio garantem comida farta e boa, a partir de R$ 7

Bruno Boghossian e Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

RIO

Os donos não têm Twitter nem Facebook: o esquema de divulgação funciona no boca a boca. Em oito restaurantes em favelas que receberam Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) visitados pelo Estado, havia comida farta e barata - coisa rara no Rio - e, em alguns casos, direito a vista panorâmica. A comida é para matar a fome, sem frescura. Paga-se a partir de R$ 7 para comer um prato honesto e bem temperado.

Nenhum letreiro identifica o estabelecimento simples onde é servido o baião de dois mais famoso da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. Quem quiser experimentar a comida do cearense Romero Alves Moreira precisa procurar o menu escrito a giz em uma lousa pendurada na parede, do lado de fora, e pedir informações sobre o Altas Horas nas ruas estreitas do morro - sem se assustar com indicações do tipo "na frente da próxima lata de lixo do lado esquerdo".

O dono trabalhou por mais de dez anos em restaurantes de Ipanema antes de começar a se dedicar ao próprio negócio, aberto em 2009 - antes da chegada da UPP. "A pacificação não fez aumentar o público, então mantenho essa estrutura simples."

A clientela é formada principalmente por moradores e funcionários das concessionárias de serviços públicos. Por R$ 8 a R$ 12, eles escolhem entre pratos como peito de frango, contrafilé, frango ao molho pardo, peixe com pirão ou costela de boi.

Cada pedido vem acompanhado do famoso baião de dois da casa ou de porções fartas de arroz, feijão, farofa, macarrão e salada. "Esse é um dos poucos restaurantes daqui que funcionam para o almoço e para o jantar", anuncia Moreira. Os talheres chegam embrulhados em guardanapos e o molho de pimenta da casa é servido em garrafas de vidro usadas, conservando os rótulos de vodca.

Vista para o mar. A ortografia está errada na placa que anuncia, no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, a "Penção do Biu", apelido do também cearense Francisco Rodrigues, de 47 anos, há 31 no Rio. Lá, as opções são costela de boi, carré, contrafilé, bife de fígado e peito de frango, acompanhados de arroz, feijão, batata frita, farofa e salada. O lugar fica na parte baixa da favela, mas é possível ver um naco das Ilhas Cagarras e do mar de Ipanema. O prato feito custa R$ 7 e a refeição completa sai por R$ 8. "Antes, era só morador. Agora está vindo gringo. Mas eles não dão gorjeta", comenta o garçom Antônio Alves de Brito, de 18 anos.

Mais acima, na estação do elevador Plano Inclinado do Pavão-Pavãozinho, fica a Pensão Bela Vista. Foi preciso subir a pé porque o elevador não estava funcionando. No trajeto, é forte o cheiro de esgoto, que corre ao ar livre. Mas lá de cima o visual é o principal atrativo, com destaque para o Forte de Copacabana. "A maior parte da clientela é da comunidade, mas já veio até gente da Bélgica", conta Jailto dos Santos, de 35 anos, conhecido como Chevette. Ele abriu o bar em 2009. O esquema é self-service, por R$ 13 o kg. "Às vezes tem um forró, quando a polícia deixa."

Ana Maria dos Santos, a Katty, de 49 anos, vendia quentinhas e lanches até abrir uma pensão no Morro da Providência, no centro, após a chegada da UPP. O lugar tem nove funcionários (seis parentes) e cobra R$ 8 pelo prato. "Pretendo ampliar, já está muito apertado", diz a pernambucana. É o primeiro estabelecimento do morro a aceitar cartões de débito.

No Bar Cheiro Bom, no Dona Marta, em Botafogo, a cozinheira é Alcina Gonçalves, de 70 anos. O prato feito custa R$ 7. "É raro turista comer aqui. Eles só tiram foto, não compram nem uma bala."

Guia. Diretor de um documentário sobre UPPs financiado pelo governo do Estado, Sérgio Bloch comeu tanto em favelas durante as filmagens que teve a ideia de fazer o Guia Carioca da Gastronomia de Rua, que lista os restaurantes das comunidades. "O turismo hoje em favela é como o de quem vai a museu. Se o turista parar e comer, beber uma caipirinha, pode haver mais integração", conta. "Valorizar a comida é um caminho, mas alguns restaurantes precisam de uma geral", diz o cineasta.

O capitão Glauco Schorcht, comandante da UPP do Morro da Providência, diz que um acordo com o Serviço Social da Indústria (Sesi) vai qualificar 60 moradores. "Temos uma cozinha industrial na sede da UPP. Eles vão aprender aqui."

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