UPPs: 60% dos soldados reclamam do trabalho

Pesquisa inédita mostra que agentes ainda não ''vestiram a camisa'' do programa de pacificação de favelas do Rio

Pedro Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2011 | 00h00

Soldados e cabos da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ainda não "vestiram a camisa" do projeto que visa a pacificar as favelas conflagradas do Rio, com a retomada dos territórios do crime organizado. Essa foi uma das conclusões da primeira pesquisa com as tropas da UPP realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes.

Apenas 40% dos 349 policiais entrevistados em nove UPPs estão satisfeitos com o trabalho e muitos duvidam da continuidade do projeto. Setenta por cento dos pesquisados disseram que preferiam trabalhar nos batalhões que patrulham as ruas. No entanto, pesquisadores e integrantes da cúpula da Secretaria de Segurança consideraram a taxa de satisfação positiva, pois nos batalhões a insatisfação atinge 90% da tropa, conforme apontaram pesquisas anteriores.

"Nos grupos focais, pesquisadores perceberam que os policiais duvidavam da continuidade do projeto. No entanto, quanto mais o tempo passa, eles e a população acreditam mais que o processo de instalação das UPPs é irreversível", afirmou a antropóloga Bárbara Soares, uma das pesquisadoras. Segundo ela, as principais reclamações de cabos e soldados se referem aos baixos salários e à falta de estrutura, como a ausência de dormitórios e sanitários adequados. "O trabalho nas favelas é difícil. As instalações são precárias e ainda estão sendo construídas. Imagina ficar no alto do Morro da Formiga sem acesso a refeitórios ou banheiros. Logo, é compreensível essa insatisfação."

O perfil dos policiais das UPPs também difere daqueles que patrulham as ruas. Além de nunca ter participado de confrontos armados com facções criminosas de traficantes, o policial da UPP tem mais estudo do que a média dos seus colegas de batalhões. "Mais da metade dos pesquisados possui o ensino médio completo, 27% o superior incompleto e 16% deles estudavam no momento da pesquisa. São pessoas que estão investindo no futuro", disse a antropóloga.

Aval. Apesar disso, 74% dos entrevistados avaliam que a recepção dos moradores de favela às tropas é negativa nos primeiros meses de ocupação. Nas favelas onde a UPP é mais antiga, como no Morro Dona Marta, em Botafogo (zona sul), 56% dos policiais acreditam que os habitantes já aprovam a UPP.

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