'UPP é tipo de ação positiva, mas se deteriora com o tempo'

Sociólogo defende processo de pacificação, mas teme lentidão das ações sociais e fortalecimento de milícias

Entrevista com

MÁRCIA VIEIRA, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2011 | 03h02

O sociólogo Cláudio Beato, diretor do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da Universidade Federal de Minas Gerais, elogia as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), mas é crítico em relação ao futuro. "O País está perdendo a chance de ter uma grande discussão sobre segurança." Embora reconheça que a polícia precisa ter prioridades, teme que as milícias ocupem os espaços livres do tráfico.

O que representa a ocupação da Rocinha? É um capítulo importante e positivo na direção de criar as condições para a Copa e os Jogos Olímpicos. Mas isso ainda não é uma política de segurança.

Por que estamos perdendo essa chance? Por várias razões. Do ponto de vista federal, eles não gostam de tratar de um tema que acaba sendo do governo estadual. Do ponto de vista dos governadores, eles fazem tudo que não entre em conflito com as polícias, que são poderosas. Elas podem desestabilizar um governo. E, do ponto de vista da sociedade, ainda tem uma atitude de que isso é coisa da senzala que está se matando, quem morre é pobre. As reformas estruturais estão para chegar. Continua morrendo muita gente no Brasil.

O senhor defende que as UPPs façam parte de um projeto mais estratégico. Qual? O que está faltando é a UPP Social. Esse tipo de ocupação por parte da polícia tende a se deteriorar com o tempo. Só ela não se sustenta ao longo do tempo. O Beltrame (José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Rio) tem toda a razão ao chamar atenção para isso. É preciso ter uma visão mais abrangente. Coisa que o Rio não tem.

O senhor acha que o enfraquecimento dessas facções criminosas com a ocupação das favelas fortaleceu as milícias? Elas foram enfraquecidas inclusive por ações de milícias. É sintomático que o governo esteja ocupando as favelas que estavam nas mãos das facções. É provável que as milícias venham a ocupar muitos desses lugares. A gente não vê a mesma ação contundente em relação às milícias. É verdade que estão sendo presos muitos policiais, mas o Estado ainda não entrou nas outras favelas ocupadas pelas milícias.

Por que o Rio fez essa opção? O Estado tem de fazer uma coisa de cada vez. Tem de eleger uma prioridade. A minha preocupação é não estar vislumbrando uma orientação mais sistêmica em relação ao que vai ser feito em relação às milícias a médio prazo. Da mesma forma como fez com essas grandes facções, tem de ir minando as bases do poder econômico.

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