Universitária descobriu `há pouco´ que vive em favela

Jovem lamenta ter que sair do lugar onde cresceu para construção de viaduto

Sérgio Duran, do Estadão

15 de julho de 2007 | 14h38

A auxiliar de desenvolvimento Daniela Elídio, de 20 anos, trabalha na Unilever, estuda publicidade na Universidade Sant’Anna e mora na alça de acesso da Ponte do Anhangüera, na zona oeste. Ela conta que nasceu e cresceu na favela, chamada Ilha Verde, mas que só foi se dar conta disso há pouco tempo."Foi no primeiro ano do colegial", recorda. "Marquei com umas amigas para elas virem fazer trabalho na minha casa, fiquei esperando o dia inteiro e nada. Daí eu soube que o pai delas não as deixou vir aqui", conta Daniela, sem exibir nenhuma melancolia.A tristeza, para ela, é ser obrigada a deixar a favela. A Ilha Verde está sendo desmontada pela Prefeitura porque a ponte passará por obras, incluídas na construção de um viaduto que liga a Anhangüera até a Lapa. Metade das cerca de 300 famílias já saiu de lá. Tiveram várias opções, entre as quais apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) em José Bonifácio, na zona leste da cidade.Os mais antigos, como a família de Daniela, tiveram a opção de ir para apartamentos mais próximos, no Jaraguá, zona oeste. "Mas não é a mesma coisa. Aqui é perto de tudo. Estamos na marginal. O ônibus pára na porta", lamenta a estudante.Ela conta que não gosta de ouvir das amigas que as obras do viaduto deixarão o lugar da favela muito mais bonito. "Não fico magoada, mas é chato ouvir isso. A sociedade acha favela suja e quer esconder essa sujeira, deixar tudo bonitinho, com graminha", diz. "Para mim, que nasci e cresci aqui, a Ilha Verde é linda", completa.ExtensãoDentro da favela, fica uma comunidade que funciona como extensão da Paróquia de São Domingos, um salão bem cuidado, com bancos de madeira e púlpito, onde a maioria das crianças de lá fez a primeira comunhão, inclusive Daniela. A ocupação tem poucas e apertadas vielas e uma rua principal.Todos os barracos são de alvenaria e a maioria é rebocada e pintada de cores em tom fortes, como pêssego e verde-limão. A mãe de Daniela, Cezarina Elídio, de 48 anos, que migrou de Ubá, em Minas Gerais, diretamente para a Ilha Verde há 31 anos, reclama que a Prefeitura pressiona os moradores para decidirem logo para onde irão entre as opções apresentadas."É uma decisão difícil demais", reclama Cezarina. "A gente larga tudo o que construiu aqui para começar do zero em um apartamento da CDHU, pagando tudo sem desconto." A Prefeitura afirma que não pressiona nem apressa os moradores.  Um em cada seis paulistanos vive em favela Nas alças das marginais, 19 favelas de frente para caminhões Obras da Prefeitura estimulam crescimento de favelas em SP

Tudo o que sabemos sobre:
Prefeituramoradiafavelas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.