Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Uma vida entre cordas e vinis vira patrimônio

Capital terá coleção rara com mais de 50 mil itens, entre LPs, CDs, acetatos e partituras de violonistas do acervo de Ronoel Simões

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2011 | 00h00

São Paulo ganhará a maior coleção de discos de violonistas da América do Sul - talvez a maior do mundo. As peças são raríssimas: 50 mil itens, entre discos, acetatos (discos de teste), CDs, fitas VHS e partituras, que faziam parte do acervo de Ronoel Simões, maior colecionador do gênero do País.

Durante 59 anos, Simões reuniu as peças no porão de casa, um sobrado da Bela Vista, na região central. Procurado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, o colecionador era reconhecidamente dono do maior acervo de violonistas famosos como Augustín Barrios, Américo Jacomino (o Canhoto) e Garoto. Grande parte do acervo que Simões levou uma vida para reunir nunca foi gravada em CD - principalmente raros acetatos, muitos deles gravados exclusivamente para o colecionador.

Após a morte de Simões, em outubro, a Secretaria Municipal de Cultura começou a negociar a compra do material. Em dezembro, a viúva do colecionador, Rosário, aceitou vender o acervo, por R$ 130 mil. O material já foi fotografado e pré-catalogado e deve ir para o Centro Cultural São Paulo no próximo mês. Futuramente, as peças devem ser dispostas na Praça das Artes, que está sendo construída no Vale do Anhangabaú.

Prejuízo histórico. "Havia perigo real de a coleção ser esfacelada, adquirida aos bocados por pesquisadores de um só violonista, ou de alguém interessado por um só período histórico. Isso acabaria com ela", diz o músico Denis Molitsas, amigo de Ronoel e um dos intermediadores da venda. "É certamente uma das maiores coleções de violonistas clássicos do mundo. Há peças únicas e raras aqui."

Apaixonado pelo instrumento desde a infância, Ronoel Simões começou a dedicar-se a ele em 1941, aos 22 anos. Por frequentar todos os concertos, acabou amigo de violonistas como a argentina Maria Luísa Anido, Abel Fleury, Dilermando Reis e do músico Heitor Villa-Lobos. Na década de 1950, teve a ideia que trouxe maior riqueza a sua coleção: passou a levar seus ídolos a estúdios e gravar, por conta própria, os chamados acetatos. "Hoje, são registros únicos da arte de muitos dos grandes violonistas do País", disse o violonista erudito Fábio Zanon, que deve ser incumbido de finalizar a catalogação das obras.

Tributo. No porão de Ronoel, a viúva Rosário Mateus Simões, de 84 anos, ainda não quis mexer - deixou intactos os quadros das aulas de violão, as fotografias com o ídolo Andre Segovia e o pianista Souza Lima, as reuniões de sábado com os velhos companheiros do Bexiga. "Difícil dizer, já que colecionador não quer se desfazer nunca de sua coleção, mas acho que ele ficaria feliz com o desfecho que tivemos", disse Rosário. "De minha parte, o que fiz para homenageá-lo foi voltar a tocar violão."

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