Uma viagem por São Paulo

As 12 ruas da Vila do Sol Nascente, perto do Pico do Jaraguá, levam nomes de artistas da MPB, mas o que mais se ouve por lá é forró, sertanejo e pagode e maioria dos moradores não conhece a obra dos homenageados

EDISON VEIGA / TEXTO , J.B. NETO / FOTOS, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h02

Há um desajuste do óbvio na Vila do Sol Nascente, bairro que fica a 35 quilômetros da Praça da Sé, pertinho do Pico do Jaraguá, na zona norte da capital. O que mais a Expedição Metrópole ouviu lá - nos botecos, nos carros com som alto ou vindo mesmo das casas - foi forró, sertanejo, pagode. Parece que não combina o nome com a coisa, o endereço com a vida. Porque na Vila do Sol Nascente há 12 ruas. Todas batizadas em homenagem a algum músico brasileiro reconhecido pela excelência e ligado à Música Popular Brasileira.

"Aqui é assim, desde sempre. Só nome de cantor que já morreu", antecipa-se Mundinho, como é conhecido o comerciante Raimundo Rodrigues Soares, de 53 anos, dono de um movimentado bar na região, onde há uma plaquinha azul que alerta: "Freguês educado não cospe no chão, não pede fiado e não diz palavrão".

O bar fica na Rua Noel Rosa. "Não conheço nenhuma música dele", admite Mundinho. Para logo, todo orgulhoso, apontar para um mapa do bairro.

Estão lá, além da Noel Rosa, as Ruas Dalva de Oliveira, Adoniran Barbosa, Clara Nunes, Elis Regina, Luiz Gonzaga, Luiz Gonzaga Jr., Carmen Miranda, Cazuza, Tom Jobim, Francisco Alves e Raul Seixas.

"Desses todos, só conheço o Raul Seixas. Meu filho gosta de tocar no violão", conta. E se arrisca a cantarolar baixinho: "Eu que não me sento/ No trono de um apartamento/ Com a boca escancarada/ Cheia de dentes/ Esperando a morte chegar...".

Ruas não são oficiais. Mundinho é cearense, vive em São Paulo há 34 anos. Chegou à Vila do Sol Nascente há 16, um dos primeiros a ocupar a região, onde não tinha nada ainda.

É ele quem conta que foram os próprios primeiros moradores que decidiram homenagear cantores. "Ficou bonito, né?", comenta.

De acordo com o historiador Maurilio José Ribeiro, da Seção de Logradouros do Arquivo Histórico Municipal, essa nomenclatura ainda nem existe nos registros. "Constatamos que os nomes não são oficiais em nossa base de dados", afirma ele.

Para quem mora ali, não importa. "Eu moro na Rua Luiz Gonzaga há 11 anos", diz a dona de casa Edi Rodrigues, de 25 anos. E conhece alguma música dele? "Não, não sei, não."

Ela estava tranquila, sentada em uma pracinha na Rua Noel Rosa, o verdadeiro centro de convivência da população do bairro.

A poucos metros dali, o desempregado Douglas Santos, de 19 anos, aguarda sua vez de entrar em campo na pelada que acontece na quadra de grama sintética. "Eu fui criado aqui, vim com 3 ou 4 anos de idade. Posso dizer que a molecada não gosta, não, de MPB", comenta o garoto, que mora na Rua Elis Regina. "Eu, por exemplo, só ouço black."

Pai de Douglas, o pedreiro Valdete Santos Gomes, de 49 anos, também não é fã dos cantores homenageados por ali. "Eu gosto de Amado Batista, de forró, de brega, sabe?"

O gosto do freguês. Na Rua Tom Jobim, outro boteco. Dois ou três clientes bebericando uma cerveja e música ambiente. Águas de Março, Eu Sei Que Vou Te Amar, Garota de Ipanema? Não, não, o que tocava era um forrozão de animar a quebrada.

"O que sei do Tom Jobim? É um cantor mais antigo. Sei que era famoso, mas é de outra época, né?", diz José Edmilson de Souza, de 42 anos, dono do bar. "Aqui eu só coloco forró e sertanejo. É o que os fregueses gostam."

E também tem o funk por ali. Em plena Rua Cazuza, de um carro estacionado, portas abertas. Ao lado, três garotos curtindo o som, tomando cerveja em lata. Não quiseram papo com a reportagem.

Dupla sertaneja. Mas o bairro mais musical de São Paulo não podia ficar sem um músico entre tantas ruas assim. Na Carmen Miranda mora Renato Rios, de 37 anos. Com o amigo Rafael, forma uma dupla sertaneja.

Três discos gravados, ele afirma que pouco para no bairro. "De quinta a segunda, é um show atrás do outro, em São Paulo e no interior", alardeia.

Renato mora na Vila do Sol Nascente há seis anos. "Gosto daqui porque é tranquilo, não tem poluição... Perto do Pico do Jaraguá o clima é bom", explica.

Só um dos 12 artistas-nomes-de-rua já tiveram alguma música tocada por ele em shows: Raul Seixas. "Tem gente que pede", justifica-se.

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