André Lessa/AE
André Lessa/AE

Uma viagem por São Paulo: Armênios, discretos e (bem) tradicionais

Comunidade se reúne no centro da capital e mantém vivos costumes, cozinha e festas

CIDA ALVES / TEXTOS , ANDRÉ LESSA / FOTOS, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2011 | 03h05

A Arquidiocese da Igreja Apostólica Armênia, no Bom Retiro, centro de São Paulo, é o principal ponto de encontro da comunidade armênia na capital. É por lá que gravitam religião, tradições e o sentido de pátria de famílias de imigrantes que deixaram aquele país no início do século passado em busca de abrigo.

"Na nossa cultura, religião e tradições andam sempre juntas", explica o padre Yeznig Guzelian, que chegou há 29 anos no Brasil, vindo da Turquia, e hoje coordena a arquidiocese.

Localizado no número 55 da Avenida Santos Dumont, o templo religioso é, segundo o padre, o primeiro marco da presença de armênios na metrópole. O primeiro de muitos na região. Em um passeio rápido por bairros vizinhos ao Bom Retiro, como Pari, e até um pouco mais adiante, como Santana, na zona norte, é fácil ver a influência dessa colônia de imigrantes, transformada em nomes de estação de metrô, praça e viaduto. Hoje, cerca de 40 mil pessoas formam a comunidade no Estado, boa parte na capital.

Povo cristão. Na igreja, pinturas enormes com escritos em armênio ornamentam teto e paredes da estrutura, inaugurada em 1948. Há altares em homenagem a São Gregório - responsável pela conversão do rei armênio no ano 301. A Armênia foi a primeira nação a aceitar o cristianismo como religião oficial - a prática é até hoje à moda antiga: nas missas, o padre fica de costas para o público. E os sacerdotes podem se casar.

Atrás da igreja, o Externato José Bonifácio dá a possibilidade de os estudantes aprenderem idioma, dança e cultura daquele país. As matrículas são abertas a todos - de origem armênia ou não. Há aulas de armênio três vezes por semana, dadas por professores jovens, que seguiram a tradição familiar.

"É uma língua fantástica. Nosso alfabeto é formado por 38 letras e cada uma tem um som diferente. Temos, por exemplo, cinco 'r', dois 't', dois 'p'", diz a professora Katia Aharonian, de 32 anos.

Para os iniciantes, a primeira lição é identificar um nome armênio. "Os sobrenomes terminam com 'ian', que significa algo como 'filho de'", diz a professora de dança Claudia Mascotian.

Nos bailes típicos, apesar das raízes árabes, danças armênias são mais comportadas, com movimentos de braços e cabeça relacionados a celebrações familiares, como o casamento. Na escola, as meninas aprendem músicas tradicionais, como Karun Karun e Qele Qele, que apresentam em uma das principais festas da comunidade, a Noite Cultural Armênia, prevista para 27 de outubro.

Na mesa. A refeição é parte importante da cultura desse povo. Se uma pessoa visitar seis famílias em um dia, será, em todas as vezes, convidada para comer. E recusar o convite, além de parecer mal educado, é um insulto à boa comida.

No cardápio do Restaurante Carlinhos, no Pari, os pratos de origem armênia tomaram, aos poucos, o lugar das picanhas e dos grelhados, antes especialidades da casa. A cozinha é comandada há mais de 40 anos por Missak Yaroussalian, o Carlinhos, que trabalha com os filhos Fábio e Fernando.

Missak chegou ao País aos 3 anos, em 1948. Foi feirante e aprendeu por conta própria as artes da cozinha armênia, como a preparação do basturma, carne prensada feita artesanalmente. "Na gastronomia armênia se come muito com a mão. Acreditamos que o uso dos talheres altera o sabor", diz Fernando.

Calçados. Na história dos armênios em São Paulo, entretanto, o ramo mais representativo da comunidade é a fabricação e venda de sapatos. Há uns 40 anos eles dominavam o setor. "As ruas São Caetano e Pagé, por exemplo, eram praticamente só de sapatarias", recorda Azad Gananian, de 62 anos.

Algumas lojas fecharam com o tempo, mas ainda há muitos pés pela cidade que levam produtos fabricados em comércios familiares como o de Azad. O empresário nasceu no exato local onde está sua loja, na Avenida Voluntários da Pátria, em Santana, que antigamente era uma vila de propriedade da família.

De acordo com Gananian, a tradição nos calçados foi forjada pela necessidade e se espalhou de forma solidária. "Um de nós começou no ramo e logo foi contratando outros conterrâneos, que aprendiam com ele, cresciam e abriam suas próprias fábricas", diz. Hoje, Gananian vende sua produção para cerca de cem lojas e emprega 25 pessoas.

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