Uma São Paulo olhando para fora

Outro dia, procurando nas estantes de casa o exemplar de Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado (foto), no qual pretendia reler histórias dos bairros de São Paulo, encontrei um outro livro, que me é muito caro - de outro escritor: Thiago de Mello.

, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Lá pelos idos de 1997, quando eu já trabalhava como repórter de O Estado de S. Paulo, assisti ao parto de um poema de Thiago de Mello durante uma viagem sobre a selva amazônica, onde ele tinha uma bela casa, desenhada por seu amigo Lúcio Costa. Thiago lá passava dias e dias em contato com o mundo das águas e das matas.

Trabalhando para uma reportagem sobre a seca que castigava a Amazônia, encontrei o poeta no aeroporto. Íamos no mesmo rumo. Comemorando a coincidência, fiquei vigiando. E o vi rabiscando durante o voo de Manaus a Parintins, região na qual os leitos de rios e lagos estavam à mostra, rachados pelo desarranjo climático.

No dia seguinte, acompanhado pelo fotógrafo Alberto Araújo, fui recebido pelo poeta em casa, na Freguesia do Andirá, em Barreirinha, coração do Amazonas. Aprendi com Thiago que lá moravam os índios que descobriram os sabores do guaraná, e que o velho poeta dependia de tudo aquilo para viver. Thiago via a beleza da vida na floresta, nos paranás, nos nativos e nas cores de um tucano quase domesticado que frequentava seu quintal - e se chamava Flor da Mata.

No livro Campo de Milagres, de 1998, pela Bertrand, Thiago publicou o poema Centelha Fugaz, que era a obra que ele rabiscava durante a viagem - e que vi nascer. É um olhar sobre a vida difícil de uma menina que ele conhecera bebê, e que acabara de ver na tristeza. Uma personagem brasileira, como as criaturas de Alcântara Machado.

A prosa nos conta histórias, mas sempre vi em poetas "historiadores" com o olhar mais aproximado da essência humana. Guardo a folha de papel, de meu bloquinho de anotações, que Thiago pediu para me presentear com 20 palavras, duas vírgulas, um ponto - e a assinatura. Tudo ornado com o desenho do perfil da mata amazônica, vista da varanda, no outro lado do Andirá.

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