Renata Angerami/AE
Renata Angerami/AE

Uma rua, dois países e a disputa pelo free shop

Cansados de sofrer com a concorrência da uruguaia Rivera, lojistas da gaúcha Santana do Livramento lutam para também ter comércio livre

Mario Henrique Viana, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2011 | 00h00

A cada feriadão, a cidade de 80 mil habitantes recebe cerca de 40 mil turistas - 10 mil em fins de semana comuns. Eles chegam em carros importados, aviões e ônibus de excursão. E vêm para encher suas malas de produtos importados muito baratos. Na cidade vizinha.

Santana do Livramento (RS) fez 180 anos anteontem e é um paraíso das compras, porque, para chegar aos free shops de Rivera, no Uruguai, não há controle, ponte, rio ou barreira de qualquer tipo. É até difícil saber onde termina o Brasil e começa o Uruguai. As cidades fronteiriças são como gêmeas siamesas.

Quem não está feliz são os comerciantes brasileiros, que lidam com a concorrência feroz dos free shops. "Somos um Eldorado para sacoleiros e consumidores, mas queremos ser um polo de turismo de maior valor agregado", diz Sérgio Oliveira, presidente da Associação Comercial e Industrial de Livramento (Acil).

Mesmo para produtos fora dos free shops, a isenção de alíquotas do Mercosul dificulta os negócios em Livramento. Os mesmos pneus, com a mesma garantia, são encontrados por R$ 127 em Rivera e por R$ 260 do lado de cá.

Igualdade. O empresariado local e a prefeitura esperam a aprovação do Projeto de lei 6.316/2009, do deputado Marco Maia (PT/RS), que prevê free shops no lado brasileiro. O projeto já tramitou nas Comissões de Relações Exteriores e Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. Aguarda parecer do relator Jerônimo Goergen (PP/RS), na Comissão de Finanças e Tributação, para finalmente seguir à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.

"É uma oportunidade muito boa. Quando a lei for aprovada, vou investir", diz Raiman Baja, dono de duas lojas de artigos esportivos no Brasil, que tem prosperado, segundo ele, graças ao atendimento e às promoções. "Sabemos usar bem nossas vantagens, como nota fiscal brasileira, garantia dos produtos, e um preço melhor que nas grandes cidades, como Porto Alegre."

Os free shops nacionais, se aprovados, não poderiam vender para brasileiros, mas talvez possam comercializar produtos nacionais. "Teremos oportunidade de conquistar benefícios não só para o comércio local, mas para a indústria nacional", afirma Oliveira, da Acil.

A vocação santanense para o turismo de consumo começou em 1986, quando o então ministro da Fazenda uruguaio, Enrique Iglesias, autorizou a criação de free shops em Rivera. Cidadãos uruguaios não podem comprar nelas e as lojas só podem vender produtos de fora da América do Sul. "Na inauguração, havia seis lojas: cada uma com duas garrafas de uísque à venda", conta Oliveira. Hoje, são 47 lojas que faturam US$ 600 milhões por ano. Uma loja média chega a faturar mais de US$ 800 mil em um fim de semana prolongado.

"Venho uma vez por mês, às vezes para o fim de semana, às vezes só para passar o dia comprando", afirma a dona de casa Adriana Capelari, de Santa Cruz do Sul (RS), a 450 km dali. O militar Rafael Baccin é outro habituée de Livramento. Ele vem com a mulher, Marília, quatro vezes por ano, para refazer o estoque de cosméticos, roupas e eletrônicos. "Aqui é melhor do que Foz do Iguaçu, é o melhor lugar de compras da fronteira", diz.

Na esteira do sucesso de Rivera, veio a decadência de Livramento. Na mesma época da abertura dos free shops, a principal indústria do lado brasileiro da fronteira foi vendida. O antigo frigorífico Swift Armour e seus 3 mil postos de trabalho ainda deixam saudade nos santanenses.

Então, veio o Mercosul e outras empresas não suportaram a concorrência do outro lado da rua. O desemprego cresceu, os jovens começaram a ir para cidades maiores do Estado e o Produto Interno Bruto (PIB) caiu. "Na pior época, nosso comércio chegou a ser a quinta opção de compra na região da fronteira", avalia Oliveira. Além dos free shops, o varejo de Livramento chegou a perder até para camelôs, com seus produtos de origem duvidosa.

Turismo. O que pode ser a guinada de Livramento é marcada pela recuperação da Santa Casa, principal hospital da cidade, em 2009, por iniciativa da Acil. O hospital estava fechado havia quase um ano por falta de condições.

Uma dezena de hotéis-fazenda foi criada em áreas rurais e de preservação ambiental, para o turista ir além das compras. Ainda assim a cidade tem apenas 1,2 mil vagas. O turismo das vinícolas também começa a ser explorado. Tudo na tentativa de recuperar o lado brasileiro da Rua dos Andradas.

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