Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Uma perfumista à prova do cheiro do Pinheiros

Especialista em avaliar fragrâncias, a paulistana Luciana Knobel trabalha em uma sala equipada com sistema de filtragem de odores bem perto da Marginal

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

27 Março 2011 | 00h00

O cheirinho nada inspirador da confluência dos Rios Tietê e Pinheiros, naquela parte de São Paulo em que as duas Marginais se encontram, é impedido tecnologicamente de alcançar as apuradas narinas da avaliadora de fragrâncias Luciana Knobel. A sala onde ela trabalha como diretora de criação da perfumaria francesa Givaudan, líder mundial de mercado, é equipada com um sistema de filtragem de odores. Fica em um prédio climatizado e cheio de corredores tão imaculadamente brancos e limpos que lembram uma nave do filme Guerra nas Estrelas.

"Você pode passar o dia inteiro aqui sem lembrar que o Tietê está tão perto", diz Luciana, de 39 anos, na frente de uma mesa repleta de potinhos e fitas olfativas. Em sua rotina na empresa, que tem clientes como as grifes Gucci, Prada e Dolce & Gabbana, Luciana passa dias inteiros inalando as tirinhas de papel perfumadas e, não contente, ainda vai para casa cheirando áreas do antebraço onde aplica fragrâncias para testar o resultado na pele.

"A gente pode levar uma semana ou um ano para chegar a um resultado. Um dos verbos que mais se usa nesse mercado é "retrabalhar"", diz.

Casada, dois filhos, Luciana garante que seu marido não vê problema em participar indiretamente dos testes dela, já que, o tempo todo, ele também precisa estar com as narinas bem dispostas. "Ele já se acostumou", diz.

Quando precisa testar uma fragrância masculina, ela pede ao estagiário Eduardo Minenelli, de 21 anos, que a aplique no próprio corpo. Diz ele: "Eu sigo um padrão na hora de aplicar. Se dou quatro voltas no braço com o cotonete untado da fragrância A, tenho de dar o mesmo número de voltas com a B." Cerca de seis horas depois, vários especialistas cheiram Eduardo para avaliar o resultado. "No começo, eu estranhava tanta apuração. Nunca imaginei que existisse uma empresa que lidasse tão rigorosamente com cheiros. Hoje sou apaixonado pelo que eu faço", diz Eduardo, que é estudante de engenharia química.

Cheiros da cidade. Há 15 anos no ramo da perfumaria, Luciana trabalha entre o cliente que os procura e o perfumista, dizendo para um o que o outro quer. Se uma empresa de cosméticos contrata seus serviços para criar a fragrância de um produto de Dia das Mães e explica que quer algo "feminino" com "toques sensuais", para "mulheres que se preocupam com sua família e também com a aparência", ela vai traduzir isso em termos como "floral adocicado", "amadeirado", "fresco".

"A sinergia entre avaliador e perfumista é fundamental. A fragrância é uma cocriação. Quando a Luciana recebe o "briefing" (resumo) do que o cliente quer e me diz, a gente já sabe mais ou menos por onde vai seguir", diz o perfumista Hernan Figoli, de 42, que trabalha com combinações de 1.500 matérias-primas.

Para perfumes "sensuais", também chamados de "quentes", ele pensa em baunilha, canela ou tonka beans; para um toque de sofisticação, usa pimenta. "Os cítricos geralmente são usados em fragrâncias masculinas. Mas, como o Brasil é um país tropical, onde as pessoas suam muito, as mulheres gostam também porque dá um frescor de limpeza", diz.

Carpete e cortina. Em relação aos cheiros de São Paulo, Luciana imagina como a brifariam, por exemplo, se o cliente fosse o Teatro Municipal: "Cheiro de arte, cultura, profundidade, ambiente fechado, carpetes e cortinas de tecidos pesado, couro das poltronas, madeira dos corrimãos, perfumes de mulheres glamourosas vestidas para festas."

Isso tudo, na interpretação dela como perfumista, corresponde a madeiras encorpadas, como patchuli, florais elegantes e notas de incenso.

Em relação a ambientes menos elegantes, como as margens do Tietê e do Pinheiros, Luciana explica que as partículas odoríferas malcheirosas possuem a sua utilidade. "Existem ingredientes que têm odor desagradável separadamente, mas interferem de maneira positiva na estrutura de uma fragrância. Servem para dar equilíbrio e aumentam a duração na pele. Em alguns casos, proporcionam um toque quente e supersensual à fragrância", afirma.

Ela recomenda muita parcimônia - não é necessário usar um rio, basta meia gotinha.

PARQUE TRIANON

Que cheiro tem?

Folhagens exuberantes, terra molhada, pedras dos caminhos que cortam o parque, aves e penas.

Como pode ser interpretado?

Notas verdes terrosas e aquosas, combinadas com musgo e madeiras voluptuosas.

MERCADO MUNICIPAL

Que cheiro tem?

Fruta da infância, fruta passada, desconhecida, especiarias, carnes, peixes, sacolas de palha, pastéis.

E a interpretação?

Frutais exóticos e tropicais (como maracujá e manga), com nuances de especiarias e pimentas.

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