Uma noite de luxo, glamour e... fome

Gilberto Gil não participa do Rock in Rio, mas o sacrifício imposto a um jornalista que precisa cobrir o camarote Vip remete à canção Se Eu Quiser Falar com Deus. Os assessores de imprensa informam as regras. A entrada só é possível a cada três horas, às 18 h, 21 h e 23 h, e o interessado precisa chegar com uma hora de antecedência para colocar o nome em uma lista. E rezar para que esteja entre os 20 primeiros a chegar. Se não estiver, pode ser barrado.

PAULO SAMPAIO, ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h02

Uma horda de colegas receosos sai em disparada da sala de imprensa a caminho do camarote, que fica escondido ao lado de dois banheirões.

As filas para as lanchonetes e restaurantes são intermináveis, não dá nem para pensar em comer. O fato de estar indo para um camarote Vip, a princípio, não muda muito as perspectivas. No texto distribuído aos profissionais da imprensa, um aviso: "Não será permitido o consumo do buffet".

O Estado consegue atravessar todos os obstáculos da gincana e entra no camarote. Resolve conversar com alguns vips sobre a condição deles. Enrolada em uma echarpe tijolo, a médica Ana Beatriz Edler, de 48 anos ("sou casada com o João Fortes"), está achando tudo ótimo: reclama apenas de ter de ouvir a voz de Cláudia Leitte. "Essa parte eles poderiam ter evitado", ela ri, enquanto aceita um folhado de roquefort. "O bufê do Aquin é excelente", continua, sem legendar a frase. Não importa. Comer, ali, é para quem pode.

Ana Beatriz tenta explicar o que é 'Very Important People' (vip), mas ela mesma embatuca: "Disseram que cabem 4 mil vips aqui dentro. Mas não existem 4 mil vips. Gente, se tiver 100 por noite é muito. Artista, eu vi uns três. Aquele Marcelo Serrado, a Ingrid sei lá do que e o Vladimir Brichta", conta.

Ela explica que sua bolsa não é de grife, mas saca lá de dentro um porta-maquiagem de oncinha. "Onça é vipérrimo", garante. "Quer dizer: tá naquele limite entre o vulgar e o vip."

Em um outro jogo de sofás, embaixo de uma palmeira estilizada, outra vip, que está acompanhada da mãe, se recusa a revelar o nome. Diz que seu marido veio a trabalho e que não seria bom sair no jornal. "Melhor não", diz a moça, uma morena mignon, maçãs do rosto dourado terracota, cabelos negros e viçosos, uma bolsa pequena Chanel pendurada a tiracolo. Diz que está sem trabalhar. A mãe, a quem ela impede de dizer o nome, intervém: "Como assim, minha filha, você é advogada!". "Mãe, chega, não quero falar mais...", tenta finalizar a vip-filha.

Mas a mãe, que está de oncinha, não aguenta: "É que ela e o marido estão chegando de dois anos em Cuba: moravam lá em um apartamento de 300 m². É possível viver muito bem em Havana, sabia?"

Tudo é muito relativo entre os vips. O atacante Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, que adora receber em casa, é odiado pelos vizinhos de condomínio, na Barra da Tijuca, justamente por seu lado festeiro. Vestido de rapper, foi o vip que mais atraiu os flashes no camarote.

O colunável Helcius Pitanguy, filho do cirurgião plástico Ivo Pitanguy, diz que vip é uma 'palavra' "que remete a conforto". "Viemos de helicóptero, comemos bem, os banheiros são confortáveis, vamos ver Elton John e voltar. Não é ótimo?"

Antes de poder concordar com Helcius, o jornalista tem de se apressar para devolver o colete que o identifica como visitante. O colete só vale a permanência por meia hora.

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