Uma luta de 50 anos contra as enchentes

Aos 74 anos, Maria Antonietta Lima e Silva diz que só vai descansar quando[br]carros não boiarem mais em inundações na Vila Pompeia, onde preside associação

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

"Vem cedo, porque à tarde chove. Aí, só de barco." O aviso bem humorado é da mulher que há meio século luta pela Vila Pompeia, na zona oeste da capital. Mas as brincadeiras de Maria Antonietta de Fina Lima e Silva, de 74 anos, param por aí. Ao receber a reportagem no sobrado de 1930 construído pelo pai, na Rua Caraíbas, ela quer reclamar dos alagamentos no bairro - só neste ano foram 17 enchentes. E logo despeja uma série de impropérios contra secretários e subprefeitos, reclama dos prédios novos, da arena do Palmeiras, do trânsito caótico.

Dona Antonietta, como é conhecida, fundou na década de 1960 a Associação Amigos da Vila Pompeia. Ela era advogada da Assembleia Legislativa e ganhou o apelido de "generala" entre os deputados. "Comigo não tem conversinha, agrado. Se a proposta não tivesse legalidade, eu barrava mesmo. Sempre quis as coisas corretas. Por isso reclamam que sou chata", argumenta.

Como liderança comunitária, Antonietta fiscaliza uma poupança de R$ 87 milhões com o mesmo rigor dos tempos de Assembleia. O valor foi arrecadado pela Prefeitura com montante pago pelos empreendimentos que chegaram ao bairro a partir de 1995, como o Shopping Bourbon e o supermercado Sonda. "Por lei, esse dinheiro deve ser investido em obras de combate às enchentes. Mas nenhum projeto saiu do papel. Agora o Elton (Santa Fé, secretário de Infraestrutura e Obras) me prometeu que a licitação para a canalização do Córrego Água Preta vai sair na semana que vem. Só acredito vendo", esbraveja.

Os gestos e a fala alta revelam a inconfundível ascendência italiana. E é com esse jeitão de matriarca do bairro que Antonietta age cada vez que as cenas de carros boiando na Rua Turiaçu se repetem. Na terça-feira, quando moradores da Pompeia ficaram ilhados após mais um temporal, eram 20 horas e ela ainda estava ligando para celulares de funcionários da Subprefeitura da Lapa para pedir a limpeza de bueiros.

"Se a Prefeitura já tivesse feito a reforma das galerias do bairro e não tivesse ficado tanto tempo estudando a construção de piscinões, as ruas ao redor do Palmeiras não estariam alagando tanto. Foi muita incompetência, pois o dinheiro está lá na conta para ser usado", aponta a líder comunitária. Quando não consegue ser atendida por autoridades, Antonietta liga para jornais e emissoras de TV e relata os problemas. "Por isso, os secretários resolveram me receber toda vez que eu ligo. Eles morrem de medo de notícia ruim."

Ela considera a ampliação do estádio do Palmeiras um risco de agravamento das enchentes. "Fora que o trânsito da região em dias de show vai travar ainda mais." No ano passado, Antonietta liderou um movimento para cobrar contrapartidas do clube de futebol por causa da obra. Conseguiu que a diretoria palmeirense assumisse o compromisso de investir R$ 6 milhões em melhorias no trânsito da região. Desde o início das obras, o clube tem afirmado que cumprirá todas as determinações da Prefeitura. Antonietta reclama mesmo assim. "É o mínimo que o Palmeiras poderia fazer pelo bairro."

Herança. A disposição para brigar pela Vila Pompeia foi herdada do pai, Rocco Fina, um italiano que deixou Higienópolis para ficar perto dos conterrâneos que trabalhavam nas Indústrias Matarazzo. As fábricas ficavam ao lado do Parque Antártica, onde agora será erguido o Condomínio Casa das Caldeiras. Os operários moravam em casas construídas pelo conde Francisco Matarazzo na Avenida Pompeia.

Um dos maiores orgulhos de Antonietta é o pau-brasil plantado pelo pai ainda moço na Rua Desembargador do Vale. A árvore de cinco metros de altura está até hoje no mesmo local. "Meu pai vinha todo sábado na Pompeia participar das festas dos italianos, que aconteciam na chácara do seu Mário. Como seu Mário não o deixava amarrar o cavalo em árvores da chácara, meu pai plantou uma só para ele. Depois veio com minha mãe para o bairro e lutou pela chegada do asfalto e da água encanada", recorda.

Antonietta nasceu na mesma casa onde mora com o marido até hoje. Tem quatro filhos e oito netos e é para eles que quer deixar o legado em defesa da Pompeia. "Se você vem ao mundo só para trabalhar e ganhar dinheiro, de que vale a vida? O importante é tentar conservar o que está ao nosso alcance para as próximas gerações", reflete. "Sei que é difícil acabar com as enchentes no bairro, mas vou lutar por isso até o dia em que Deus me chamar."

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