Uma inglesa à frente do turismo da cidade

Na cidade há 22 anos, a executiva Annie Morrissey é a primeira mulher - e a primeira pessoa estrangeira - a presidir o São Paulo Convention & Visitors Bureau

Edison Veiga / TEXTO e Werther Santana / FOTO, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

"São Paulo dá oportunidades, sem bairrismo, sem preconceito contra quem é de fora. O fato de eu ser presidente do São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB), que é o maior do gênero na América Latina, é um exemplo disso. Aqui você pode fazer de tudo, basta querer." Com essas palavras, a britânica Annie Susan Morrissey, de 47 anos, ilustra sua própria vida na metrópole. Que ela adotou 22 anos atrás e pela qual luta, principalmente desde fevereiro do ano passado - quando assumiu a presidência do SPCVB. É a primeira vez que um estrangeiro ocupa o cargo.

Bem-humorada e bastante, digamos, abrasileirada, é em tom de piada que ela conta sobre sua chegada a São Paulo, em 1988. Formada em Letras pela Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, ela dominava bem o idioma espanhol e trabalhava em uma central de reservas hoteleiras em Londres. "Meu chefe me chamou dizendo que tinham uma oportunidade para mim. Iriam abrir um escritório em São Paulo, estrategicamente importante para os negócios na América Latina", conta. "E ele disse: "ah, você fala espanhol, vai ser bom". Aquela velha piada, né?"

Primeiras impressões. Ela topou. Veio para ficar alguns meses. "Sempre as pessoas vêm para ficar alguns meses", ri. A empresa tinha então 6 mil hotéis associados em todo o mundo - cem deles brasileiros. E, daqui de São Paulo, Annie encarregou-se de montar escritórios em outros países, como Peru, México, Argentina... "Aí realmente pude treinar meu espanhol", brinca.

Mas como foi o impacto de chegar a São Paulo, uma cidade que até então ela não conhecia? "Desci em Campinas e achei que já estava em São Paulo. Então pensei: "gente, o que é isso que não chega nunca?"", relembra. "No começo achei a cidade muito confusa, a sinalização não era boa, não conseguia entender o mapa. Mas o que salva o Brasil é a atitude das pessoas: é inata a capacidade do brasileiro de ser simpático, servir bem. Esse calor humano que tem aqui, e eu não via na Inglaterra, superou todas as coisas negativas."

Três meses depois, o escritório londrino perguntou se Annie gostaria de ficar de vez na cidade. Ela topou. "Já tinha alguns amigos e estava começando a entender um pouco o que as pessoas falavam. Passei a gostar de São Paulo, uma metrópole que, assim como Londres, não para. É 24 horas, muito energética", define.

Um desses primeiros amigos é o hoje diretor de Turismo e Entretenimento da SPTuris, Luiz Sales, na época repórter de uma publicação especializada em Turismo. "A Annie é tão surpreendente que chegou aqui superjovem em um cargo de difícil assimilação no mercado e se tornou uma das principais executivas de uma área que vive um momento aquecido", resume.

Seu primeiro endereço em São Paulo foi o Hotel Eldorado, na Avenida São Luís. De lá, mudou-se para o Bexiga. Vem dessa época seu prazer por caminhar a pé pelas ruas paulistanas. "Meu escritório ficava na Praça da República e eu ia e voltava andando. Não tinha medo e me encantava com a arquitetura do centro de São Paulo", diz. "Falam que ele é sujo, que ele é feio, mas eu gosto muito do centro velho."

Roteiro. Depois de oito anos na empresa que a trouxe ao País, Annie foi contratada pela rede Atlantica Hotels International. Atualmente é vice-presidente de Marketing e Vendas da companhia, sediada em Alphaville. "Eu a conheci já como executiva da Atlantica. É extremamente respeitada no meio, sou fã incondicional dela", diz Caio Luiz de Carvalho, presidente licenciado da SPTuris, coordenador do Comitê Paulista para a Copa de 2014 e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Annie vive nos Jardins, é mãe de uma menina de 7 anos - foi casada com um brasileiro, mas se separou - e vai à Inglaterra uma vez por ano para rever a família e os amigos. "Um ano no verão, outro no inverno", explica. "No verão é melhor, porque dá para ficar até tarde em um pub e ainda tem sol lá fora."

Como defensora do turismo paulistano, ela tem um roteiro na ponta da língua para agradar aos gringos. "Quando recebo alguém de fora, costumo levá-lo a um passeio que julgo essencial em São Paulo", conta. "Primeiro, a Pinacoteca, porque é um museu maravilhoso. Depois, ali perto, tem o Jardim da Luz, o Museu da Língua Portuguesa e a Estação da Luz, com aquela arquitetura de encher os olhos. Aí levo ao Mercadão e ao Parque do Ibirapuera. Com esse roteiro você consegue matar várias coisas interessantes."

Mas não é só. "Faço questão de que ele (o amigo gringo) bata perna realmente no centro para conhecer os botecos que eu acho interessante. Tem de comer uma feijoada bem feita em um boteco. E, se quer fazer compras, não levo a um shopping, mas sim ao Bom Retiro", diz.

Essa obstinação por andar a pé tem explicação em seu hobby. Annie corre dez quilômetros três vezes por semana. Ou no Parque do Ibirapuera ou nas ruas do Campo Belo - bairro onde vive seu namorado. "Durante os jogos do Brasil na Copa, corri pelas ruas vazias. Foi muito engraçado", conta ela. No último dia 31 de dezembro, disputou pela primeira vez a São Silvestre. "Guardo a medalhinha", afirma, orgulhosa. Percorreu os 15 quilômetros em 1h30 e terminou a prova em 9.642.º lugar.

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