UMA HORA PARA TIRAR 1 USUÁRIO DE CRACK DA RUA

Dependente tinha de sair de barraco, ir à base municipal, ser cadastrado e seguir para hotel

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2014 | 02h02

O "trabalho de formiguinha" desenvolvido por assistentes sociais da Prefeitura, que envolve paciência com os dependentes de crack, permitiu que a Operação Braços Abertos (programa que inclui oferta de casa, emprego e alimentação) fosse cumprida, ontem. Dessa forma, a maior parte da favela instalada na Cracolândia, região central paulistana, sumiu.

Grande parte dos moradores da área teve de ser estimulada, até o último instante, a aderir ao programa. "Quem acredita neles (os dependentes) somos nós. Mais do que eles mesmos", disse a assistente social Tuani Bessa, uma das funcionárias que trabalhou ontem na retirada dos moradores. O serviço deve ser concluído hoje, com a saída dos últimos barracos da Alameda Dino Bueno.

A reportagem do Estado acompanhou o trabalho de Tuani por uma hora. Ela tinha de orientar um dependente, seu Antônio, a sair do barraco que ocupava, prosseguir até a base da Operação Braços Abertos, esperá-lo ser cadastrado e instalá-lo em um hotel. Tudo no mesmo quarteirão. O dependente não parecia sóbrio. Estava irritado, sem controle e falando enrolado. Parava e falava sozinho.

A assistente simplesmente ignorou isso e o ajudou: foi guiando seu Antônio pela rua - cheia de gente, caminhões da Prefeitura e sujeira. Isso depois de ela mesma pedir emprestada uma carroça para levar a bagagem a outro morador. Ela foi puxada por Antônio, o que fez a viagem ganhar ares de via-crúcis.

Ao sair da Dino Bueno e entrar na Rua Helvetia, Antônio já queria entrar no hotel. Mas não parou no lugar certo e ele ainda não estava cadastrado oficialmente no programa. "Vamos, seu Antonio. Não é aqui", dizia Tuani, para ver o homem simplesmente ignorá-la e arrumar briga com outro morador da rua, por um motivo que a reportagem não entendeu.

Tuani mostrou paciência. Primeiramente, esperou os dois baterem boca. Depois, esperou o fim de uma briga de socos. Em seguida, a espera foi para Antônio manobrar a carroça, presa na sarjeta. No fim, esperou uma nova troca de socos entre os dois (Antonio levava socos nos braços e nos ombros, mas não tinha condições de reagir).

Enquanto o bate-boca continuava, sem impaciência, Tuani avisou: "Seu Antônio, estamos indo. O senhor vem também?", em um tom de voz como o de uma mãe que fala com o filho que faz birra em público.

Outro morador de rua, vendo a cena, ajudou a manobrar a carroça. Mas ela mesma teve de ajudar a puxar o veículo, pegando em uma corda. Alguns metros depois do hotel errado, seu Antônio a seguiu e retomou a tração do veículo.

Mas, ao entrar perto da base da Braços Abertos, Antonio acabou atropelando uma mulher, sem querer. "Cuidado, seu Antônio. Vai devagar, o senhor atropelou ela", falou a assistente, com tom firme.

Ocorre que outro morador da região viu a cena e partiu para cima do condutor da carroça. E, mais uma vez, houve troca de socos. Dessa vez, Antônio bateu no outro rapaz, que era mais baixo. Tuani o chamou de volta, e eles entraram no prédio da Prefeitura.

O homem ainda tentou revidar, mas ali havia guardas-civis que impediram a reação. E finalmente Antônio estava cadastrado no programa. Ao todo, cerca de 100 pessoas foram encaminhadas para o mesmo local ontem, "cada um no seu tempo", segundo o secretário de Segurança Urbana, Roberto Porto, na tarde de ontem.

Tuani trabalha com moradores de rua há dois anos. Diz que é preciso tratá-los com respeito, pois a via é a casa deles. "A rua é um lugar agressivo, então eles têm de ser agressivos. Estamos acreditando muito no programa", disse ela. A ausência da Polícia Militar ajudou o processo, por não existir repressão aos dependentes, segundo a assistente.

Trabalho. Os atendidos pelo programa devem começar a trabalhar na sexta-feira. Vão varrer dez praças da região, trajando um uniforme específico do programa.

Instalados em hotéis, em quartos separados por famílias ou por até cinco amigos, vão fazer refeições em uma unidade do programa Bom Prato no próprio bairro. "Estou ansioso para começar. Estava morando em um barraco fazia dois meses. Agora, tenho tudo o que preciso", disse Walter Cândido de Lima, de 40 anos.

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