Uma formiga da literatura

São todas excelentes, confirmo agora ao repassá-las, as lembranças que tenho de Autran Dourado, falecido no Rio faz uma semana. Lembranças que, primeiro, me deixaram seus livros, alguns deles lidos, relidos e esmiuçados no ardor de meus longínquos 20 anos de idade. A barca dos homens, romance que me impressionou ao ponto de haver sacrificado rarefeitas finanças de estudante para mandar encaderná-lo. E também meu exemplar de Nove histórias em grupo de três (depois rebatizado Solidão, solitude), livro admirável que volta e meia revisito.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h00

Andava pelos 22 quando conheci Autran Dourado, um senhor de 41 anos, bigodão vitalício e uma cara séria (sem prejuízo, vi depois, de ribombantes gargalhadas) que a meus olhos o distinguia de outros mineiros igualmente instalados no Rio e na glória literária: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, quatro cavaleiros extrovertidos, exuberantes, amolecados. Cigarras da literatura, achava eu, em oposição à formiga das letras que foi Autran Dourado.

Não estava de todo equivocada a minha avaliação juvenil. Por temperamento mas também escolha, não havia nele certa mundanidade que aos outros conferia cintilação social. Na sua geração, pelo menos, aquela que teve estreia tipográfica na década de 40, não vejo muitos escritores que tenham explorado tão radicalmente cada grão do talento que lhes coube, e nenhum que tenha tido com a literatura relação mais obstinadamente monogâmica.

Autor de maus versos na juventude, como quase todo iniciante, Autran Dourado não tardou a embicar pelo território que seria o seu, o do romance. "Investi tudo, a vida inteira, na carreira de romancista", me disse ele certa vez, "e se amanhã aparecer com um livro de poesia, será um mau livro, porque Deus é justo..." Nos anos 70, trocou divertidas farpas com Fernando Sabino quando o amigo, paralisado sob o peso do sucesso de O encontro marcado, que o impedia de reincidir no gênero, andou anunciando que o romance estava morto. "Gozado o Fernando", comentou Autran. "Foi campeão de natação, e agora, que já não dá conta de nadar, quer esvaziar a piscina..." O nadador, como se sabe, recuperou o fôlego e voltou à raia com braçadas de romancista para delivrar O grande mentecapto, em 1979.

Autran Dourado tinha horror a algo para ele muito brasileiro, o "mito do escritor ignorante", aquele que apenas se deixa levar pelos acasos de um talento maior ou menor. Não acreditava em escritor que não se dedicasse cotidianamente ao aprendizado do ofício, e achava um absurdo dizer-se que "fulano escreve muito bem" - pois num escritor, insistia, escrever bem é requisito básico, eliminatório. "O escritor tem que saber escrever", me disse ele, "para depois desaprender." Convicção que ele creditava não a um homem de letras, mas a um artista plástico, o pintor Guignard, de quem esteve muito próximo em seus anos de formação. Guignard, dizia Autran, não acreditava em artista que não soubesse desenhar muito bem, "e com lápis duro", que não permite refazer o traço, antes de chegar ao guache, ao óleo.

Escrever foi seu projeto prioritário, e para viabilizá-lo Autran cuidou de providenciar um ninho, uma segurança material que o dispensasse de se esmerilhar na ganhação da vida. Tranquilidade que lhe veio no começo da década de 60, sob a forma de um cartório presenteado por Juscelino Kubitschek, a quem servira nos governos de Minas e da República como redator de discursos e secretário de imprensa. Experiência, aliás, que na maturidade renderia um saboroso livro de memórias, Gaiola aberta, farto em revelações por vezes espantosas - como o hábito que tinha JK de convocar assessores, Autran inclusive, para com eles despachar enquanto tomava banho de banheira.

No final do mandato, o presidente, que via no escritor uma vocação de político, lhe acenou com apoio para uma carreira de parlamentar. Fez bem o assessor em preferir o cartório: nenhuma falta nos fez o deputado Waldomiro Autran Dourado. Já o escritor...

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