Uma festa silenciosa com muita conversa

O desenhista de som Davide Nelson, de 23 anos, tira o fone do ouvido e começa a falar português com um sotaque indecifrável. Ele explica. "Nasci em Manaus e fui adotado com dois meses. Meus pais são italianos."

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

Nelson conta que estudou Administração de Empresas em Milão, fez um intercâmbio em Portugal e veio tentar a vida no Brasil. "Vocês são o futuro. Gosto da música daqui, de Caetano, Chico, de samba. Existe um ritmo próprio. Na Itália tem o quê? Tarantela? (dá uns passos, ridicularizando)." E continua a "parlar" copiosamente.

A balada em silêncio está cheia de gente falante. Na pista do bar Sonique, onde a Nokia realizou anteontem seu segundo Silent Club, as pessoas escolhem suas músicas em três canais e dançam com um fone de ouvido. Todos parecem muito concentrados enquanto "nadam" em silêncio, mas basta um gesto na direção do vizinho para que ele coloque o fone no pescoço e comece a sorrir e falar, quase aliviado.

"As pessoas sempre fazem gênero na noite. Aqui é assim: a menina finge que está em uma "vibe" individual e não quer ser incomodada. Mas existe pretexto melhor para perguntar: "o que você está ouvindo?"", diz o programador visual Jackson Freitas, de 35 anos.

Em um momento, tocam Caetano Veloso, Information Society e Michael Jackson. Os canais podem ser acessados por um clique na lateral do fone. "Não tem nada de antissocial nessa balada. Ao contrário, é a chance que você queria de ficar falando. Todo mundo comenta o comportamento das pessoas, defende sua escolha de música, dá opinião sobre as trilhas ", afirma a assistente social Marcia Dado, de 31.

A novidade chega ao Brasil com uma certa quilometragem. O próprio Davide diz que em 2008 já se promoviam festas silenciosas na Itália. O auditor holandês Henk Huisman, de passagem por São Paulo, conta que foi moda em Amsterdam há oito anos. Até na Virada Cultural, dois anos atrás, produziram uma Silent Disco.

Dança. São 22h30 e a jornalista Camile Liguori, de 22 anos, que esteve na primeira edição da festa no Sonique, parece preocupada. Diz que, àquela hora, já deveria ter mais gente.

Camile acredita que o segredo da descontração é o álcool. "À medida que as pessoas vão bebendo, se soltam, cantam alto, fica muito mais divertido."

Para os novidadeiros, portar-se como se a balada em silêncio fosse a coisa mais natural do mundo é tão importante quanto ter uma opinião "diferente" sobre o que está acontecendo. "(A festa) É tão idiota que é até legal", afirma o diretor de clipe Bruno Gazziano, de 22 anos, amigo de Camile.

Bruno chega um minuto depois de Camile dizer que está ali só para curtir o som, já que "nesse bar só tem gay". Por azar, Bruno e seus três amigos são ostensivamente heteros. Ele mesmo não para de abraçá-la, agarrá-la, passar a mão em seu cabelo. "Coloca no canal 3!", ela grita, procurando "mudar de assunto".

O holandês Huisman parece enfadado com a seleção de músicas dos DJs. Diz preferir "algo mais acelerado". "O que é isso?", pergunta, com desprezo, quando tocam Cazuza. Cita o DJ Moby, o rock progressivo.

Huissman diz que foi parar ali depois de consultar um guia de bares. Reclama que não vê nada ali tipicamente brasileiro. A reportagem sugere uma churrascaria rodízio, mas Huisman e seu amigo, Tom Niehamp, de 36 anos, resolveram ir a algo mais genuíno. "Um amigo que morou em São Paulo nos disse para ir em um lugar chamado Daslu. Você conhece?"

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