Uma cidade e sua gente

Um sabiá-laranjeira canta - é o celular de Dalgas tocando. Um inhambu-chororó canta - são 17h no relógio de Dalgas. Um bem-te-vi canta - ops, agora é de verdade: vem do quintal de Dalgas. Dentro de seu escritório, aves são onipresentes: patos selvagens enfeitam o painel imenso atrás de sua mesa; no fundo de tela do computador sempre há um pássaro; seu endereço: Praça Uirapuru (na Cidade Jardim, zona sul da capital).

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h05

Dalgas é como todos chamam Johan Dalgas Frisch, o senhor dos pássaros. Aos 81 anos, ele acaba de lançar seu quinto livro (todos são sobre aves), Para Que As Primaveras Não Se Calem Para Sempre. Com toque autobiográfico, a obra narra as aventuras desse ecologista inveterado. Não é de hoje que esse paulistano, filho de imigrantes dinamarqueses, é fascinado pela preservação do meio ambiente. Criança, ele tinha o hábito de passar as folgas escolares percorrendo as matas do Morumbi e brincando na várzea do então limpo Rio Pinheiros. Aos 7 anos, encontrou uma juruviara machucada e mostrou ao pai, o engenheiro e desenhista Svend Frisch. O pássaro acabou morrendo, mas foi eternizado em um desenho de Svend. Nascia a obsessão de Dalgas: catalogar todos os pássaros do Brasil.

Mas, como a ornitologia (o estudo dos pássaros) era uma carreira um tanto obscura para a época, Dalgas acabou deixando isso apenas como hobby. Formou-se engenheiro industrial e foi ganhar a vida em uma fábrica de linhas. "Nos fins de semana, ia para a Represa do Guarapiranga ou para a Serra do Mar gravar o som dos pássaros", recorda-se. Lançado em 1962, o LP Cantos de Aves do Brasil vendeu mais de 1 milhão de cópias e chegou a ocupar o topo da lista dos discos mais vendidos no País, à frente de Ray Conniff. O sucesso foi tanto que o presidente João Goulart entregou um exemplar ao seu colega americano John Kennedy. O papa João XXIII, o astronauta Neil Armstrong e o empresário Nelson Rockefeller também ganharam o disco. "As gravações nos farão lembrar das belezas e riquezas de seu País", escreveu Rockefeller.

Nessa época, Dalgas encabeçou uma campanha paulistana. Das cerca de 200 aves que viviam na cidade nos anos 1930, apenas seis podiam ser vistas na década de 1960. "Passarinho precisa de árvore frutífera. É o restaurante dele." Com o apoio de estrelas como Hebe Camargo e Vicente Leporace, os paulistanos voltaram a valorizar as boas árvores para os passarinhos. "Hoje, temos cerca de cem espécies na cidade", comemora Dalgas.

Ainda nos anos 1960, Dalgas saiu da fábrica de linhas para montar um negócio próprio: uma empresa de manejo ambiental, hoje dirigida por seu filho único - fruto do primeiro casamento -, Christian Dalgas Frisch, que acompanha o pai nas expedições, fotografando pássaros (é autor das imagens que aparecem nos livros). Dalgas fundou a Associação de Preservação da Vida Selvagem (APVS), entidade que preside hoje.

Resgate. Em 1991, um falcão peregrino foi abatido por crianças, a pedradas, em Presidente Prudente, no interior de São Paulo. O ornitólogo foi chamado para salvar a ave. "Levamos para o Zoológico de São Paulo, onde a ave passou por uma cirurgia na asa esquerda. Depois, ficou hospedada na minha casa, para se recuperar. Em minha fazenda, no interior, foi submetida a sessões de fisioterapia", relembra. No ano seguinte, Dalgas levou o falcão, batizado de Mister Álamo, de volta a sua terra de origem, Houston, nos Estados Unidos. Em reconhecimento, recebeu o título de Cidadão Honorário do Texas.

Dez anos mais tarde, Dalgas inventou um curioso relógio que anuncia as horas cheias com o canto de um pássaro brasileiro. Doze horas, doze cantos. "Na verdade, eu não inventei nada. Descobri que tinha um com pássaros americanos e fui atrás da mesma fábrica chinesa para fazer um com aves brasileiras", ri. Só no escritório de Dalgas há quatro - cada um com um fuso horário diferente, o que garante uma sinfonia incomum de pássaros. As aves "de verdade" são atraídas a seu quintal graças ao que ele batizou de "restaurante": um quilo de sementes de girassol e dúzias de frutas por dia. "É uma festa: juriti, asa-branca, periquito, papagaio, jandaia, sabiá, sanhaço, pica-pau... Eles vêm enquanto tem comida."

O segredo de tanto sucesso ele repete umas cinco vezes a cada hora de conversa: "Você precisa ter uma estrela no céu para ajudá-lo, em tudo. Minha vida foi essa estrela. Quando tudo está escuro, eu vejo a saída."

Desde o dia em que, aos 7 anos, tentou salvar uma juruviara machucada,

o ornitólogo dedica a vida a campanhas em prol das aves do Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.