Uma cidade e sua gente. A equipe por trás da Virada Cultural

Funciona como um quebra-cabeça. São mais de mil atrações, que precisam acontecer durante 24 horas em 40 pontos da cidade. Os encaixes nem sempre são fáceis e têm de ser compatíveis, ainda, com as agendas de cada artista. Missão impossível? Não para o time de quatro integrantes que faz a Virada Cultural.

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2012 | 03h07

Em comum, apenas a obsessão pelos mínimos detalhes e a devoção à arte, sem preconceito, em todas as suas manifestações. De trajetórias completamente diferentes, eles são os produtores do Departamento de Projetos da Secretaria Municipal de Cultura: Eunice Souto, de 60 anos, Marcos Antonio Roberto, de 53, Vanessa Pedrosa, de 30, e Gabriela Fontana, de 27. Trata-se do esquadrão de confiança de José Mauro Gnaspini, o curador do evento.

A rotina se repete desde 2005, quando ocorreu a primeira edição, ainda de forma experimental. "É como escola de samba: acaba um carnaval e já estão pensando no desfile do ano seguinte", compara Vanessa. "Ao longo do ano, já vamos ficando de olho em artistas. Acontece de vermos um malabarista do semáforo, acharmos bacana e já trocarmos contato. De repente, ele passa a integrar alguma atração", comenta Marcos.

Por volta de novembro, a programação já começa a ser montada. "No começo, era mais difícil seduzir os artistas mais renomados. Agora, com o evento consolidado, muitos chegam a nos procurar", diz Vanessa. "Aos poucos, a Virada foi ficando com a cara da cidade", completa Eunice.

Mas o dia a dia do quarteto muda mesmo a 30 dias do evento. A sala onde eles trabalham, no 11.º andar da Galeria Olido, no Largo do Paiçandu, torna-se pequena para tanto papel, tanta gente entrando e saindo, tanto telefone tocando, tanta reuniãozinha acontecendo. E a equipe é reforçada por mais quatro produtores, contratados de forma temporária. "O público pode não saber, mas para a Virada acontecer nós precisamos virar várias noites em claro aqui também", diz Gabriela.

E engana-se quem pensa que, nos dias 5 e 6, quando os eventos estiverem tomando conta da cidade, eles poderão curtir ou simplesmente descansar. "É o dia em que mais corremos", conta Vanessa. Telefone em punho o tempo todo, preocupações com eventuais atrasos ou mudanças de última hora - são 24 horas de puro estresse.

Depois do sufoco, os imprevistos rendem ótimas risadas. "Em 2008, por exemplo, o Luiz Melodia não conseguia chegar ao Teatro Municipal de carro, por causa da multidão", lembra Marcos. "Eu estava lá, aflito, quando de repente ele entra a pé pela porta da frente: 'Oi, sou o Luiz Melodia e tenho show aqui'."

Para Vanessa, o episódio mais marcante foi logo na primeira edição, em 2005. "Tinha um palco de música hard core na Praça da Sé e, no meio daquele som, chega uma noiva para casar na catedral", relata. "Eram 3 mil pessoas de preto na praça, gritando e cantando alto. Quando vi, estava no carro da noiva, tentando consolá-la." A solução: interromper o show para que a noiva entrasse e saísse da igreja. "Mas o povo não se conteve e gritou: 'Noiva! Noiva! Noiva!"

O know-how será útil neste ano. Haverá um casamento na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Campos Elísios, em pleno sábado da Virada. Muito perto de uma pista que será montada para que DJs soltem o som. "Vamos atrasar um pouco o início ali e, de quebra, ainda deixaremos a noiva escolher a música que ela quiser para tocar na sua saída da igreja", garante Gabriela.

Trajetórias. Gabriela é a mais nova integrante do grupo. Esta Virada será a sua primeira como produtora - como público, esteve em outras três. Economista formada em 2009 pela USP e atriz, ela trocou sua cidade natal, Ribeirão Preto, por São Paulo em 2002. Parece empolgadíssima com o desafio da Virada. "Será uma experiência incrível." Talvez só não mais incrível que o momento mais marcante das Viradas que frequentou. "Foi no show do Wando, em 2009", lembra, com um sorriso um tanto envergonhado por admitir que, sim, atirou uma calcinha ao palco no Largo do Arouche.

Já os outros três integrantes participam da organização do evento desde a primeira edição. Vanessa entrou na Secretaria da Cultura justamente nessa época, em 2005. Paulistana da Vila Madalena, ela trabalhava desde os 15 anos como produtora. Começou ajudando uma amiga cineasta, como assistente. Depois passou a promover eventos de rua. "Aí, quase sem querer, vim para a secretaria. Aqui é minha maior escola, sem dúvida."

"Dinossauro da Prefeitura", como ele próprio se define, Marcos está na secretaria há 24 anos - após atuar por 11 como assessor da Secretaria de Administração. Paulistano da Vila Maria, formado em Letras, é ator profissional, diretor da escola de samba X-9 Paulistana e foi bailarino de uma companhia de dança. Trocou os palcos pela mesa do departamento. "Mas continuo ator, pois do lado de cá é preciso ser um personagem novo todos os dias."

A carioca Eunice mudou para São Paulo em 1983, após sete anos de exílio em Guiné-Bissau - o pai era líder sindical. Lá, foi alfabetizadora. Antes de passar no concurso para a Prefeitura, em 1990, trabalhou como assistente de fotografia e no administrativo de uma empresa de engenharia.

Histórias de quem 'vira a noite' muito antes de começarem as 24h do evento

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