''Uma cidade dividida não vai se desenvolver''

São Paulo tem um terço da sua população em favelas, loteamentos, cortiços e outros assentamentos que desafiam qualquer política habitacional. São exatas 994.926 famílias vivendo em situação de risco, segundo a Prefeitura, algo como um Uruguai inteiro. Ainda assim, apesar de todas as dificuldades sociais criadas por essa questão, São Paulo "está pelo menos no caminho certo". Para o urbanista sul-africano e diretor-geral da Aliança de Cidades, William Cobbett, a cidade pode se transformar no futuro em um exemplo mundial de como resolver o problema das favelas.

Entrevista com

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2010 | 00h00

Cobbett foi secretário executivo do Ministério da Habitação da África do Sul, no primeiro governo pós-apartheid, secretário de Habitação da Cidade do Cabo e chefe do Departamento de Assentamentos Humanos do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). À frente da Aliança das Cidades, coalizão mundial de cidades para melhorar as condições de vida, financiada pelo Banco Mundial, ele estará no Rio nesta semana para participar do 5º Fórum Urbano Mundial, principal evento de urbanismo do mundo.

O fórum, que ocorre de amanhã até o dia 26, deve reunir cerca de 20 mil pessoas para debater a redução das desigualdades nas cidades. Entre os trabalhos que serão mostrados está uma pesquisa que estima que 10,4 milhões de pessoas deixaram de viver em condições de favelização no Brasil nos últimos dez anos. Ainda assim, as cidades do País continuam entre as mais desiguais do mundo. Leia a seguir trechos de entrevista concedida ao Estado.

O tema do fórum mundial neste ano é "O Direito à Cidade - Unindo o Urbano Dividido". Não é um tanto irônico discutir isso no Rio, uma vez que a cidade-sede do evento recentemente ergueu muros para conter as favelas?

Sim, claro, isso é extremamente controverso. As boas mudanças não aparecem simplesmente isolando um problema, isso é óbvio para qualquer um. O que é interessante no Brasil, e não só no Rio, é que a transição para uma economia urbana simplesmente não foi bem planejada, muito menos bem-sucedida. E a resposta dos políticos nas décadas de 60, 70 e 80 foi a negligência com os pobres. Nada foi feito para lidar com o problema habitacional, nada foi feito para melhorar a assistência a essa população e muito menos foi dada a oportunidade para essas pessoas segregadas virarem cidadãos de verdade. E, assim, o Brasil tem de lidar até hoje com essa exclusão social tão acentuada, que é visível principalmente nas favelas. Mesmo que mudanças tenham sido realizadas nos anos 90 para melhorar a legislação, motivadas pelos movimentos sociais, a solução leva décadas e ela depende de muitos investimentos. E isso vale para Rio, São Paulo, para o Cairo, ou Bombaim, ou qualquer outra megalópole. Isso também mostra a necessidade de uma constante revisão e reforma na forma como pensamos as cidades.

Mas há bons exemplos no País de como lidar com o problema habitacional?

Absolutamente. Se você me perguntar quem no planeta está fazendo um bom trabalho para lidar com as favelas, eu diria Brasil, eu diria São Paulo. O problema é que o País está tendo de lidar hoje, em pleno ano de 2010, com o fato de que pouca coisa foi feita nas últimas três décadas. Acho que hoje, o Brasil está no caminho certo, não tenho dúvidas. São Paulo já é hoje um exemplo internacional de como encarar o problema das favelas de forma eficiente.

A Prefeitura diz que vai sanar o déficit habitacional de São Paulo em 2024. O senhor considera que esse projeto seja possível?

Sim, acho completamente possível. Tem governo por aí falando que vai acabar com as favelas em cinco anos... Hoje, a população em favelas de São Paulo ainda cresce, mas analisando por uma ótica mais ampla, a municipalidade está fazendo grandes avanços. Me parece uma política consistente, com investimentos e intervenções bem planejadas, que está à frente de qualquer grande cidade do mundo. São Paulo está tentando superar décadas de negligência com a população favelada, além de ter de repensar como toda a cidade funciona. Demora muito, claro, mas é possível.

A Aliança de Cidades financia experiências em lugares tão díspares como Quênia, Índia e Brasil. É menos complicado trabalhar uma cidade com uma infraestrutura quase nula do que encontrar soluções para lugares "no meio do caminho", como São Paulo e Rio?

Isso é interessante, eu posso te responder sim e também não. Ao contrário de cidades muito pobres, os problemas de São Paulo não são simples e a escala dos problemas são muito maiores. Mas há mais recursos e conhecimento. Cada cidade precisa encontrar suas soluções, cada cidade vai ter de repensar a sua estrutura da sua própria forma. É preciso lembrar que a economia hoje depende muito, mas muito mesmo, do sucesso das cidades. Levar essa mensagem por todo o mundo é essencial, e essa é a importância do fórum urbano. Você não pode ter uma cidade bem sucedida se tem uma cidade dividida. Essa é a chave para entender o futuro das cidades e como as políticas urbanas deveriam funcionar.

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