Uma área de risco. Três histórias de perdas com a chuva

Nas primeiras nuvens escuras, moradores de bairro da zona leste se preparam para o pior, já prevendo desabamentos e enchente

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2011 | 00h00

Nível um. Tateando as paredes da viela, Irene Maria dos Santos, de 63 anos, chega à casa onde mora com a filha, Viviane, de 26. O olho lacrimeja a catarata e o glaucoma que nublam sua vista há tempos. Ela quase não enxerga, mas sabe quando o céu preteja e ameaça despencar no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo. Sua casa é uma das sete interditadas na Rua Paraturá, no mês passado, depois de um deslizamento que destruiu um barraco logo abaixo. Irene e a filha estão no nível um da tensão pré-chuva que aflige os moradores da região e de todas as outras áreas de risco da cidade.

Prevendo que a terra úmida da base de sua casa possa ceder a qualquer nova pancada, as duas levaram quase todos os móveis do quarto para a cozinha. Dormem ali, mesmo com a casa interditada, em um colchão no chão, com cinco gatos, criados como ratoeiras contra a invasão dos roedores nessa época.

"Quando ameaça chover, corro para a casa da minha vizinha", diz Irene. "A gente escuta na TV que quando desbarranca morre gente. Tenho medo que desmorone tudo e a gente despenque lá para baixo." Irene não tem aposentadoria, sua família toda morreu em Pernambuco, a filha Viviane cumpre aviso prévio e está desempregada a partir do dia 23. A viela está sem saída.

Nível dois. A garota de 7 anos escreveu uma carta para o apresentador Augusto Liberato, o Gugu, da Record. "Meu nome é Maria Eduarda. Eu e minha irmã gostaríamos de uma casa nova", apresentou-se. Maria Eduarda, a irmã Monique, de 6 anos, a mãe Mônica da Silva Sousa, de 30, e o pai Fábio Rogério de Brito, de 31, são os vizinhos ao lado do barraco soterrado no dia 13 de dezembro. Na cartinha para o apresentador, ela relatou o dia em que a Defesa Civil "interditou a gente". Já tinha começado a pingar lá fora quando a menina contava de sua missiva.

A janela da cozinha de Mônica está na altura do terreno oco que permeia a casa de Irene. É o nível dois da Rua Paraturá. As nuvens carregadas se aproximam, mas ela espera para ver se a chuva é brava ou garoa antes de despachar as filhas para a casa da sogra, um pouco acima na rua. Se o deslizamento acontecer, já tem planejada uma rota de fuga para ela e o marido, pela laje da casa.

Com os vizinhos Manoel das Neves e Marta Maria, que também têm dois filhos, Mônica e Fábio pretendem juntar um dinheiro e erguer um muro por conta própria para conter a terra avulsa. Esperam só passar a compra de material escolar.

"Meu coração aperta quando escurece, mas não de tristeza ou medo. É revolta", diz Fábio. Manoel também não se conforma com o que considera um descaso da Prefeitura e da Defesa Civil, que foram ali, interditaram as casas e não ofereceram qualquer alternativa. "Não deram nem a lona que hoje segura a água ", indigna-se Marta.

Não bastasse o medo e o risco por conta da chuva, ela recebeu uma conta de luz, com vencimento em 28 de dezembro, de R$ 456,23. Marta ligou para a empresa e informou: "Não moro no Morumbi, não, moço. Como eu teria uma conta dessa?" A vizinhança toda paga um valor alto de eletricidade, de cerca de R$ 200.

A chuva aperta, o vento está violento e Mônica começa seu ritual. Embrulha Maria Eduarda e Monique em toalhas, dá um guarda-chuva rosa de bolinhas para cada uma e corre para a casa da sogra. "Toalha é sempre bom", sorri Maria Eduarda. Somem nas escadarias transformadas em cachoeiras.

Mônica volta encharcada para tentar - em vão - expulsar a água da cozinha a rodo. "O pior é que a gente se acostuma", resigna-se. "Eu mesma pensava, quando via deslizamento na TV: "por que essa gente não sai daí?". Hoje sei. Estou aqui porque preciso."

Nível três. Paraturá abaixo, os barracos de madeira reaparecem, logo à beira de um córrego transbordando de lixo. O nível três é o mais arriscado. Além do risco de soterramento, a pontezinha precária de tábuas desaparece na água imunda.

Com a chuva, Valéria Marques Conceição e a mãe, Mariah, ficam ilhadas e a lama invade o barraco. "Já perdi meu pai para a leptospirose há quatro anos. Ele saiu na água para tentar salvar a TV ", diz Valéria. Mariah já se preparava para jogar os móveis para cima do beliche. "Não dá para explicar o sentimento quando o céu fecha. Mas a gente se acostuma a viver com medo da chuva."

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