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Uma agenda de longo prazo para o 'Homo sapiens'

Sabemos quando e como a vida vai desaparecer da face da Terra. Dito isso, o que pretendemos fazer, nos conformar e desaparecer? Para sobreviver precisamos de uma estratégia a longo prazo. Aqui vai minha versão. Pode parecer loucura, mas leia até o fim.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2014 | 02h06

Os astrônomos já conhecem o ciclo de vida das estrelas. Sabem o que acontece quando elas envelhecem. O Sol está envelhecendo e consumindo o hidrogênio disponível. Quando o hidrogênio acabar, a fusão nuclear que mantém o Sol aceso vai consumir outros elementos químicos. A temperatura e o diâmetro do Sol vão aumentar. O Sol vai engolir e derreter a Terra. Será o fim da vida e da própria Terra.

Sabemos que a Terra será engolida pelo Sol daqui a 2,5 bilhões de anos, e o curioso é que também sabemos que a vida surgiu faz 2,5 bilhões de anos. Metade da duração desse processo que chamamos vida já se passou. O tempo que nos sobra é semelhante ao tempo que já passou. O processo evolutivo levou 2,5 bilhões de anos para criar um ser vivo engenhoso, capaz de descobrir quando a vida surgiu no planeta, e quando ela vai desaparecer. E agora, qual o plano desse ser vivo para os próximos 2 bilhões de anos?

Apesar de nossos ancestrais terem surgido há 1 milhão de anos, nossa espécie surgiu 300 mil anos atrás. Vagamos pelo planeta durante 285 mil anos, inventamos a agricultura faz 15 mil anos, descobrimos como funciona a vida há 60 anos e saímos pela primeira vez do planeta há algumas décadas. Em um horizonte de bilhões de anos, nossa experiência é ínfima, mas é o que temos para elaborar nosso plano de ação.

Se não queremos desaparecer com a Terra, precisamos deixar o planeta antes que ele seja engolido pelo Sol. Para tanto, existem duas possibilidades. A primeira é que nos próximos bilhões de anos sejamos descobertos por uma sociedade avançada e benevolente, que tenha compaixão e nos transporte para algum dos muitos planetas que podem sustentar seres vivos. A outra é desenvolvermos a tecnologia necessária para mudar para outro planeta antes que o Sol nos engula.

A boa notícia é que temos 1 bilhão de anos para descobrir como fazer isso. A má notícia é que sobreviver o tempo necessário para descobrir uma estratégia e organizar nossa mudança não será fácil. Poucas espécies conseguiram. De todas espécies que surgiram no planeta, mais de 99,9% estão extintas. Mas, orgulhosos de nossa mente sofisticada, acreditamos que vamos escapar desse destino. Afinal, desde que descobrimos como modificar o meio ambiente, deixamos de nos submeter à seleção natural. Se faz frio, inventamos roupas; se falta alimento, escravizamos vegetais; se falta energia, desenterramos petróleo; se a distância é grande, voamos. Com certeza, um ser tão engenhoso não vai desaparecer do dia para a noite (é claro que um meteoro pode atingir a Terra, mas já temos um plano para isso).

Teremos de sobreviver muito tempo por aqui antes de nos mudar. E, nesses longos horizontes de tempo, perder um hectare de floresta por ano pode ser mortal. Poluir um metro cúbico por ano de água pode nos matar de sede, e qualquer mudança climática, por mais lenta que seja, se for unidirecional pode tornar a Terra inabitável antes de nossa partida. É isso que a palavra sustentável significa, criar condições capazes de permitir nossa sobrevivência por milhões de anos. Será que é possível?

Nossa micro-história de 300 anos não é animadora. Nos espalhamos rapidamente pelo planeta exaurindo recursos não renováveis. Comemos todos os grandes mamíferos da Europa, transformamos grande parte do petróleo em gás carbônico. Os peixes estão desaparecendo dos mares e dos rios. Pela primeira vez um ser vivo conseguiu mudar o planeta com suas ações. Até inventamos um nome para esta nova era, o Antropoceno. Nesse ritmo, dificilmente permaneceremos por aqui o suficiente para desenvolvermos uma estratégia migratória nos próximos milhões de anos.

O curioso é que conseguimos prever o futuro, sabemos o que nos espera. Mas talvez o cérebro humano tenha um defeito impossível de reparar. Nossa capacidade racional permite que imaginemos fatos que ocorrerão daqui a milhões de anos, mas nossas ações são guiadas pelo que esperamos que aconteça nos próximos minutos, meses, anos ou décadas. Para o Homo sapiens, o longo prazo pode ser até antevisto e imaginado, mas nossa ação visa ao curto prazo.

Para um ser vivo com esse defeito, uma agenda de longo prazo não passa de um exercício de retórica. E não foi exatamente isso que você pensou ao ler os primeiros parágrafos deste texto? Que o que estava escrito era um exercício de retórica?

Se esse defeito não puder ser sanado, não migraremos para outro planeta nem seremos extintos daqui a 2,5 bilhões de anos. Muito antes, talvez daqui a milhares de anos, já faremos parte dos 99,99% da biodiversidade extinta. Talvez o ser vivo que vai nos substituir seja capaz de organizar um plano de ação de longo prazo. E felizes migrarão para outro planeta antes de serem engolidos pelo Sol.

*É biólogo 

Mais informações: "Five billion years of solitude", de Lee Billings Ed. Penguin 2013

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