Um tour pelo 'lado irritante' de SP

Excursão de ônibus da trupe teatral Parlapatões leva a plateia ao ‘pior da cidade’; piadas tiram sarro de hábitos dos paulistanos, de situaçõestípicas e de regiões da metrópole

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2010 | 00h00

 

"Gostaria de mandá-los para o inferno, mas vocês vão é para O Pior de São Paulo." É com essa mensagem motivadora do Comandante Trevor que, no último sábado, um grupo de 40 pessoas embarcou no ParlapaTour, uma excursão de ônibus pelo o que há de mais irritante na cidade.

O passeio sai do Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt. "Vamos botar caos nessa ordem", anuncia o guia, interpretado pelo palhaço Hugo Possolo, do grupo Parlapatões. Ele e sua ajudante, a atriz Rachel Ripani, divide o público em filas para entrar no ônibus. "Mulheres com calcinhas de renda à esquerda, homens de jeans à direita", diz ela.

"Vamos logo. Todo mundo estressado porque paulistano é assim mesmo", agita Possolo, apressando a entrada. Antes de ocupar seus assentos, os passageiros ainda precisam tomar doses de vacina contra dengue e contra H 171 (código penal para estelionato) - "doença comum por aqui", conta o guia.

Críticas. As piadas tiram sarro do paulistano e de regiões da metrópole. "Revemos São Paulo de forma crítica", afirma o dramaturgo Mário Viana, que escreveu o roteiro ao lado do Parlapatões. "Brincamos, por exemplo, com a má educação do povo, que nem cumprimenta no elevador e usa carteira de estudante falsa para pagar meia-entrada."

Mas eles não têm medo de irritar a plateia, formada principalmente por moradores da cidade - os alvos das piadas? "Até agora, ninguém reclamou", diz Possolo. "Não hostilizamos", completa Viana. "As cenas são em lugares públicos e não invadimos a privacidade das pessoas. Então, levam na esportiva."

 

Cômico. Uma das paradas do ParlapaTour é na Rua Oscar Freire, região luxuosa conhecida pela concentração de lojas de grifes. "Chegamos ao zoológico", alerta Possolo quando o grupo desembarca na via. "Não alimentem os animais porque eles não estão acostumados com comida de pobres como vocês."

A caminhada pela rua é interrompida por cenas dos atores. Perto de restaurantes chiques, por exemplo, dois deles ensinam como fazer churrasquinho de gato - "ícone" da cidade.

Na calçada, um casal encena uma briga. "São todos espécimes raros, que representam 1% da população", destaca Possolo. "Só que não achem que há apenas ricos aqui. Tem também aqueles que gastam todo o salário do mês para se vestir bem e andar na Oscar Freire."

Cidadania. Nas piadas (ainda mais nas improvisadas), os atores aproveitam para cutucar o paulistano típico. "Na Oscar Freire vocês aprenderam que é permitido parar o carro na faixa de pedestre", analisa o guia. "Porém, é preciso ter um carro importado e blindado para isso."

"Alguma coisa acontece quando cruza a Consolação com a Paulista", alerta ele, dentro do ônibus. Na mesma hora, atores vestidos de bandidos entram no veículo - intervenções, brincadeiras e até um teste de conhecimento sobre a cidade são feitos durante o tour.

"Somos do crime organizado e fazemos tudo direitinho", diz um dos ladrões. "Quem quiser pagar com cartão de crédito, temos maquininha." A maioria, porém, dá o "dinheiro do ladrão" - notas falsas distribuídas no começo em um kit básico de sobrevivência em São Paulo.

"Agora, vamos visitar a nossa sede", avisa o criminoso. Nisso, o ônibus para na frente da Câmara Municipal. "Vocês só não poderão entrar porque trabalhamos apenas de terça, quarta e quinta."

Origem. Possolo teve a ideia de criar O Pior de São Paulo em um voo. "Estava no mesmo avião que um colega que faz essa excursão na Espanha", lembra. "Resolvi adaptar o espetáculo para cá."

A primeira saída do ParlapaTour foi em 2007. Essa é a segunda edição do passeio, que conta com sessões até domingo que vem - os roteiros e os pontos visitados variam. "O tour instiga um outro olhar para a cidade."

Piadas

Poluição

No ônibus, o grupo distribui brindes, como um frasco cheio de ar poluído de São Paulo. "E é só abrir para preencher novamente", indica o guia.

Fiscalização

"Sou da Companhia de Engenharia de Tráfego de Pedestres", diz um ator. "E farei um teste do "bofômetro" para cadastrar pessoas para a Parada Gay."

Kit sobrevivência

Os guias mostram o que é preciso ter para sobreviver em São Paulo: pregadores para tampar o nariz; boias contra enchentes; "dinheiro do ladrão".

 

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