Um terço dos ataques foi em protesto por mortes na zona sul

Três casos de jovens assassinados motivaram manifestações que acabaram com a destruição de 9 ônibus

Bruno Ribeiro, Fabiana Cambricoli, Luciano Bottini Filho e Mônica Reolom, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2014 | 02h04

Protestos por causa de assassinatos atribuídos por parentes das vítimas à Polícia Militar foram responsáveis por cerca de um terço dos ataques a ônibus na capital neste ano. Três mortes terminaram em manifestações, com a destruição de 9 dos 32 ônibus queimados na cidade - média de um por dia desde que 2014 começou.

O caso mais recente é o do auxiliar Guilherme Augusto Gregório, de 19 anos. Ele morreu na madrugada de anteontem, assassinado com nove tiros enquanto ia de sua casa para a casa da namorada, no Jardim Capela, região do Jardim Ângela, zona sul. O enterro foi ontem de manhã.

Depois da cerimônia, ainda com uma camiseta branca com uma foto e o apelido do rapaz - "tio pança" -, cerca de 30 pessoas atearam fogo em um ônibus na Estrada do M'Boi Mirim. Na noite anterior, o mesmo grupo teria sido responsável por outros três ataques a coletivos.

Depois do ataque, oito pessoas foram detidas - entre elas, maiores de idade com passagem pela polícia e meninas adolescentes sem passagem. Muitos deles estavam com a mesma camiseta, mas negam ter participado do ato. "Ele foi ao enterro com a camiseta, voltou para casa, viu o ataque pela TV e saiu para a rua, quando foi preso", conta a tia de um dos detidos.

A morte de Gregório é investigada pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). A Secretaria de Estado da Segurança Pública informou que cápsulas calibre 380 foram encontradas pela perícia. Parentes contam que, antes de ser baleado, o rapaz teria sido abordado por policiais, que encontraram maconha. Apesar de ser liberado, ele teria sido ameaçado de morte, segundo amigos, caso fosse encontrado na rua novamente. "Mas ele foi visitar a namorada mesmo assim", disse um amigo.

Capão Redondo. Outros cinco coletivos foram queimados no Capão Redondo, também na zona sul. Os protestos ali foram pela morte de Daniel Medeiros, de 19 anos, e Felipe Oliveira, de 17. Eles foram mortos na noite do dia 8, após passar a tarde no sítio de um amigo em Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Segundo a polícia, a dupla trocou tiros com policiais durante uma perseguição. Investigadores da Polícia Civil afirmam que há pontos em aberto nessa versão: nenhuma das vítimas tinha carteira de habilitação, o que explicaria a tentativa de fuga da PM. O relatório inclui uma perseguição de 10 km entre Embu e Itapecerica da Serra. No final, um dos dois teria sacado uma arma, depois que a moto caiu. Testemunhas dizem que as marcas na moto são de uma batida na traseira.

A moto estava em nome de um amigo de Oliveira, que teria fugido de sua casa após ser procurado por PMs. Em nota, a PM afirma que o caso é investigado. "Durante o acompanhamento, o garupa efetuou um disparo contra os Policiais Militares, alvejando o capô de uma viatura, que estava no apoio", diz o comunicado.

Ações. O promotor de Defesa do Patrimônio Público e Social do Ministério Público Estadual Saad Mazloum convocou o coordenador operacional da PM, coronel Sérgio de Souza Merlo, responsável pelo policiamento da zona sul, para saber que medidas estão sendo tomadas para garantir que os coletivos possam circular. A reunião será no dia 3. "O transporte está relacionado ao direito constitucional de ir e vir", disse. Representantes da Prefeitura e das cooperativas e empresas de ônibus também serão ouvidos.

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