Um século vendo o mesmo filme

Mais um cinema morreu outro dia em São Paulo. Era uma iniciativa dos artistas Alexandre Borges e Júlia Lemmertz: chamava-se Cine Arte Lilian Lemmertz, homenagem à arte da mãe de Júlia. Ficava na Rua Clélia, na Água Branca. Está no escuro, em silêncio.

, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

O fechamento de uma sala de exibição é sempre uma perda, em qualquer lugar. Uma tela apagada é menos espaço de diversão, reflexão, pensamento. Menos gente alimentando a alma. Nos últimos anos nasceram várias salas nos shoppings da cidade, moderníssimas, muito procuradas. Mas, no caso das casas de arte - assim como no caso das pessoas -, a estatística vale zero.

Outro dia, conversando com um velho observador dessa cena, Máximo Barro, professor da FAAP, lembramos de outras perdas de salas.

"O antigo Cine Bandeirantes, no Paissandu, virou abrigo de carros. Outros cinemas se transformaram em igrejas, supermercados. O Ipiranga era o mais belo. O Cine República foi demolido para dar lugar ao Metrô, e até hoje nada foi construído lá", recorda o professor. "O República se gabava de ter a maior tela da América. Havia salas muito confortáveis. Você estava sentado e não precisava encolher os joelhos para dar passagem."

Máximo Barro conta que a primeira projeção na cidade ocorreu em 7 de agosto de 1896. Chamavam de "photographia animada". A "sessão" foi para autoridades. Um caderno especial sobre o centenário do Estado, publicado em 1975, oferece rico material sobre o alvorecer do cinema na cidade.

O pioneiro foi o francês Georges Renouleau. Ele tinha casa na Rua Marechal Deodoro. Ao lado, uma lotérica. Durante a comemoração de um bilhete premiado, a casa foi invadida por um buscapé. E pegou fogo. O artista perdeu tudo. Abalado, Renouleau voltou à França. Lá teve contato com os Lumière e, entusiasmado, retornou a São Paulo com o cinematógrafo. "A primeira "sessão" foi em uma casa que existia na Rua Boa Vista com a Ladeira Porto Geral". Ficou "em cartaz" por dois meses.

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