Um pé na terra e outro na jaca

Estávamos ainda no pré-sal - chamemos assim àquela rodada de petiscos com que se entretém o estômago enquanto não é hora de passar à mesa -, e a conversa, movida a bom espumante, tinha já um tom de fim de festa. Esgotados os balanços do ano que acabava, fatalmente chegamos a outra obviedade, os planos para o que ia começar dali a pouco - e quem deu a largada foi uma das jovens senhoras. Em gozo de recente e bem-sucedida separação, ela anunciou que pretendia separar-se também do analista.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2011 | 00h00

- Chega! - disse com enraivecida veemência. - Quem quiser que faça análise, já fiz minha parte.

Mais de 13 anos de divã.

- E o pior é que ninguém percebe!

A maior dificuldade, ultimamente, tem sido a falta de problemas, que a leva a enveredar por dilemas transcendentais do tipo "compro o sapato preto ou o marrom?" À falta de mercadoria própria, nossa amiga está pensando em fazer "carreto de problema":

- Assim: se vocês tiverem algum, posso levar pro meu analista. Não cobro nada.

Uma garrafa adiante, este outro libera fantasias a respeito da bolada com que a Mega-Sena em breve inundará sua depauperada conta bancária. Joga toda semana, faz anos, e, acreditem, jamais ganhou. Ou por outra: ganha sempre, mas só até o maldito momento em que os números são sorteados. Como às vezes acontece com o prêmio, sua decepção se acumula. Nem por isso entrega os pontos: tem tudo programado para quando sobre ele desabe o tantas vezes adiado tsunami pecuniário.

Para começar, já reservou uma "verba de desrecalque", a ser esbanjada em iniciativas como a compra de horário na TV para dizer uns desaforos e servir pencas de "bananas" a não poucos desafetos:

- Fulano de Tal! Aqui, ó!

Mais: vai alugar uma grua, dessas que se usam para trocar lâmpadas em postes altos, e no interior da pequena caçamba visitar por fora uns endereços de empresas onde gramou como empregado. A ideia é alcançar as janelas dos antigos carrascos, dar uma batidinha na vidraça e escancarar um sorriso revanchista. Não qualquer um:

- Vou mandar fazer uma dentadura de diamantes - delira ele.

Pretende ostentá-la, de corpo presente ou pela televisão, para declarar, num sorriso de mil quilates:

- A fortuna não há de mudar o homem simples que sempre fui.

Nadinha para os menos favorecidos, seu egoísta?

Claro que sim. Como tem bom coração, está disposto a ajudar pobres diabos na superação de seus problemas. De cara, vai criar um fundo para financiar separações que tirem do atoleiro conjugal fulanas e fulanos unidos hoje apenas pelo mesmo carnê do IPTU.

- Alguém se habilita?

Agradeço, mas dispenso, e não apenas porque sou, já faz tempo, responsável único pelo meu IPTU. Tenho outros planos para o ano novo. Na vida de minhas rotinas tão fatigantes, também faço ritualmente, a cada fim de ano, minhas juras de revolução, já nem digo existencial, apenas doméstica, encabeçadas pela disposição de desbastar a selva de papéis a que dou o nome de "meu escritório". Para descobrir, mal janeiro se põe em marcha, que os bons propósitos vão de vento em proa.

Não tenho nada de sensacional a anunciar, mas parece que desta vez a coisa vai. Passei os últimos dias numa frenética rasgação de papéis (não, não me faça a maldade de dizer que deveria ter começado por esta crônica). O que deu em mim? Talvez me faltasse, nesses anos todos de promessas vãs, algo que as enfeixasse numa palavra de ordem, à maneira do que fazem governantes espertos para dar amarração e visibilidade a seus desconjuntados planos administrativos - e eis que uma luz me caiu, não do céu, mas da cabeça em mais de um sentido brilhante do fotógrafo Paulo Leite, no curso de nossa matinal vadiagem de padaria.

- Um pé na terra e outro na jaca! - sentenciou lá pelas tantas o magnífico artista e sábio homem, já não me lembro a que propósito, ao mesmo tempo em que, como de hábito, vertia quantidades despropositadas de adoçante em seu café.

Se você conhece o Paulo, singular combinação de lucidez e saudável loucura, há de reconhecer nele a prova viva do acerto dessa frase, que imediatamente adotei como diretriz para o ano de 2011 e todos os outros a que tiver direito. Pisando um pouco mais na jaca, para começar.

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