Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Um passeio no Ipiranga em uma jardineira

Morador do bairro desde os anos 1970 junta forças com historiadora e cria roteiro turístico

Juliana Deodoro, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h08

SÃO PAULO - Em plena manhã de sábado uma jardineira Ford de 1931 passeia pelas ruas do Ipiranga, na zona sul de São Paulo. Ao volante, Augusto César Fidalgo, de 53 anos, faz o trajeto planejado, levando em consideração prédios importantes do bairro, como o Museu Paulista da USP (conhecido como Ipiranga), a Mansão dos Jafet e o Museu de Zoologia. Ao seu lado, a historiadora Natália Godinho explica a importância de cada um dos edifícios e contextualiza o bairro historicamente. Juntos, eles são responsáveis pelo tour Redescobrindo o Ipiranga, que ocorre todo fim de semana.

Augusto, que é morador do Ipiranga desde a década de 1970, decidiu há alguns anos criar o tour, seu jeito de valorizar o bairro em que nasceu e se criou e que, na sua opinião, acaba sendo esquecido pelas pessoas. "A história dessas ruas e prédios é muito legal, mas ninguém tem memória." 

O primeiro tour, apesar do sucesso, acabou sendo deixado de lado, pois Augusto estava ficando sem tempo de mantê-lo. Na época ele trabalhava no Aquário de São Paulo, também no bairro, que hoje é um dos grandes apoiadores do projeto.

História. No começo do mês, porém, Augusto voltou à ativa e cheio de novidades. A mais importante delas é a presença de Natália. Formada em História pela Universidade de São Paulo (USP), ela atua como monitora do grupo. "A princípio, o que chama a atenção de todo mundo é a jardineira, mas acho que o bacana é que eu vou junto explicando tudo e, acredite, acabo mudando certos conceitos históricos que todo mundo acredita, mas que são inverdades."

O exemplo mais comum, segundo ela, é as pessoas acharem que o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, foi a casa de d. Pedro I. O edifício-monumento foi, na verdade, construído na década de 1880, bem depois que o imperador já havia morrido. Imponente, o prédio tem 123 metros de comprimento e é a atração mais esperada do tour.

Apesar da importância do museu da USP, Augusto destaca outro museu, o do conde José Vicente de Azevedo. "Você já ouviu falar dele?" E logo emenda, sem ouvir a resposta: "Pouquíssima gente conhece, mas é um lugar muito bacana". O Museu do Conde, que não cobra ingresso de entrada, geralmente é o último ponto do tour, mas até o dia 15 de maio o local está fechado para reformas e o passeio vai pular esta etapa nos próximos dias.

Integrante da Assembleia Legislativa durante o Império e deputado federal e senador nos primeiros anos da República, o conde José Vicente de Azevedo (1859-1944) foi uma figura importante para o Ipiranga. Ele era dono de grande parte do que hoje é o bairro e construiu a maioria dos edifícios históricos da região. Além disso, fez campanha por uma das vias mais importantes do Ipiranga, a Avenida Nazaré. O conde também é responsável pela criação de instituições que caracterizam a região, grande parte delas de caridade ou educação, como o Educandário da Sagrada Família e o Memorial Santa Paulina.

Conhecimento. Natália destaca que, à semelhança da Mooca e do Brás, o Ipiranga também foi um bairro operário. "Esse micro universo está na verdade contando a história da construção de uma cidade inteira."

Augusto afirma que, no primeiro dia que reativou o tour, 80 pessoas passearam pelas ruas do bairro. O público, em sua maioria, era composto por famílias e jovens, mas o roteiro é feito para todos, sem distinção de idade ou de região. "Não precisa ser morador do bairro para participar e gostar." Natália diz que, a princípio, o interesse maior é das crianças e dos homens. "Sabe como é, eles adoram a jardineira. Pedem para ver o motor, ver como funciona", conta.

Além de uma parceria com o Museu do Conde José Vicente de Azevedo, Augusto também está atrás de contatos com o albergue da região, para trazer mais turistas. Mesmo com toda essa variedade, ele garante que são as pessoas mais velhas que mais se comovem com a jardineira: "Tem gente que até bate palma quando a gente passa".

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