Um novo estágio da disputa EUA-China por supremacia

Nos últimos dias, presidente da China telefonou para líderes de países europeus afetados pelo coronavírus para oferecer auxílio; esse papel costumava ser desempenhado pelos EUA, como ficou evidente na epidemia de Ebola

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2020 | 08h00

Dois meses depois da explosão da crise financeira de 2008, o ex-presidente americano George W. Bush recebeu em Washington os líderes do G20, que nas semanas anteriores já articulavam uma resposta coordenada ao maior terremoto que chacoalhou a economia mundial desde 1929. A liderança dos EUA no esforço global de conter os efeitos da debacle financeira foi reforçada por Barack Obama, que assumiu a Casa Branca em janeiro de 2009. 

No atual tsunami de coronavírus, o presidente da maior economia do mundo está longe de desempenhar o papel de maestro de ações coordenadas que possam minimizar o impacto do desastre. Pelo contrário. Donald Trump age sem consultar seus aliados europeus e está em uma rota de colisão com a China que dificulta qualquer ação conjunta entre os dois países

Depois da guerra comercial, o coronavírus parece ser o novo estágio da disputa por supremacia entre as maiores economias do mundo. Pequim cometeu uma série de erros nas semanas iniciais da epidemia, entre dezembro e janeiro. Os mais graves foram a supressão de informações sobre o novo vírus e a demora em adotar medidas drásticas para combatê-lo. Agora que parece ter a situação sob controle, com redução no número de novos casos, o presidente Xi Jinping ocupa novamente o vácuo deixado pelos EUA e tenta assumir o papel de liderança na crise global.

Nos últimos dias, Xi telefonou para líderes de países europeus afetados pelo coronavírus para oferecer auxílio e despachou médicos e kits de testes para a Itália e outras regiões do mundo. Esse papel costumava ser desempenhado pelos EUA, como ficou evidente na epidemia de Ebola. Em 2014, Obama coordenou uma resposta global à doença e despachou equipes médicas à África para combatê-la.

Em outra inversão de papeis, o bilionário chinês Jack Ma, dono do Alibaba, anunciou a doação de 500 mil kits de testes e de 1 milhão de máscaras para os Estados Unidos, que sofrem escassez de ambos os produtos.   

Trump despreza arranjos multilaterais e sua promoção da “América em Primeiro Lugar” mina a credibilidade dos EUA como líder global. Na semana passada, o humor na Europa em relação ao atual ocupante da Casa Branca azedou ainda mais depois que a imprensa reportou a tentativa de Trump de comprar os direitos, para uso exclusivo dos EUA, de uma vacina contra o coronavírus que está sendo desenvolvida pelo laboratório alemão CureVac.

A informação gerou indignação na Alemanha. “Pesquisadores alemães estão tendo um papel de liderança no desenvolvimento de medicamentos e vacinas como parte de uma rede global de cooperação”, disse o ministro das Relações Exteriores do país, Heiko Maas. “Nós não podemos permitir uma situação em que outros queiram adquirir exclusivamente os resultados de suas pesquisas.” Trump já havia irritado seus pares do continente ao barrar voos da Europa sem consultá-los ou informa-los com antecedência.

A imagem de união que se viu em 2008 parece não estar no horizonte agora. A máquina de propaganda da China também dificulta a cooperação ao divulgar que o coronavírus pode não ter se originado no país -o que contraria todas as evidências. Segundo a teoria da conspiração Made in China, o vírus poderia ter sido levado a Wuhan por militares americanos que fizeram exercícios na província em outubro. Claro que isso não explica como os mesmos militares evitaram contaminar pessoas nos EUA quando retornaram ao país.

Em resposta, Trump tem se referido ao coronavírus como “vírus chinês”, o que enfurece as autoridades de Pequim. A tensão entre as duas maiores economias do mundo aumentou ainda mais com o anúncio sem precedentes da expulsão de 13 jornalistas americanos da China. É um indício de que o relacionamento bilateral pode se deteriorar ainda mais, no momento em que a economia global precisa ser socorrida por uma resposta coordenada. Pelo que se viu até agora, Trump não parece estar disposto a liderar esse esforço.

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