Um Natal incomum no Complexo do Alemão

Moradores do conjunto de 13 favelas da zona norte do Rio celebram com mesa farta e fogos

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2010 | 00h00

Perto da meia-noite do dia 24, quando o barulho dos fogos de artifício no Morro do Adeus vai aumentando, a dona de casa Nanci Regente Machado, de 57 anos, há 50 moradora do Complexo do Alemão, na zona norte carioca, ironiza: "Não precisa se espantar que é tudo falso. Se fosse há alguns anos, eu não garantiria". Nanci prepara a ceia na cozinha de sua casa de quatro cômodos.

O Morro do Adeus é a região mais "tranquila" do complexo, que compreende 13 favelas e abriga cerca de 65 mil habitantes. Nanci afirma que, mesmo na época em que sabia quem eram os traficantes, jamais se envolveu com a vizinhança. "Eles agora estão comendo capim. Morreu todo mundo."

Na sala estão seu marido, o autônomo Luiz Cláudio Pereira Machado, de 50, a filha do primeiro casamento, Cristina, de 38, e os três netos, Raquel, de 8, Renato, de 12, e o mais velho, René Silva, de 17, que em novembro despontou para a fama depois de tuitar minuto a minuto a ocupação do complexo pelas forças de segurança. No começo, René tinha 190 seguidores no Twitter. Hoje, eles são 39 mil.

A ocupação foi notícia no mundo todo. Pela primeira vez, o Exército e a Marinha cederam seus efetivos para uma operação urbana desse tipo, auxiliando a polícia do Rio. Mais de 800 soldados ainda reforçam o policiamento no local. A tomada do Alemão foi uma resposta a ataques realizados pela facção criminosa Comando Vermelho.

Fundador do jornal Voz da Comunidade, que tem cinco adolescentes como repórteres, René recebeu convite para participar do programa de Luciano Huck, conseguiu bolsas em uma faculdade de jornalismo para toda a redação e não para de receber ofertas de patrocínio. Três operadoras de celular brigam para ter o nome associado ao dele; uma empresa de informática ofereceu computadores; outras duas, de cosméticos e chocolates, e um banco, também investem nele.

Policiamento. Débora Mendes, de 11, que trabalha na Voz da Comunidade, se prontifica a ciceronear a reportagem até a Grota, considerada a região mais violenta do complexo, onde ela só vai uma vez por mês, para visitar a avó. No caminho, conta que sua mãe recebeu indenização do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) porque a casa da família ficava no local onde se instalou uma torre do teleférico que vai atender a comunidade.

A atmosfera na Grota é diferente, a começar pelo policiamento ostensivo de homens armados com metralhadoras, vestindo uniformes camuflados. Débora afirma que a região está mudada. "A essa hora, o funk estaria comendo solto", diz. Em bares, casas e carros de portas abertas, as aparelhagens de som tocam desde Michael Jackson e Lady Gaga até Legião Urbana.

Presentes. Nanci, que havia saído da sala para se arrumar, tirou o lenço que cobria a cabeça e colocou uma peruca, para esconder as manchas que adquiriu em decorrência do lúpus. "Tô linda?", pergunta, com cara de debochada.

Começa a distribuição de presentes e, depois, a ceia. Peru, tender, rabanada, empadão, pão recheado, frutas, castanhas e bolo de chocolate. No final, Nanci vai até a porta se despedir da reportagem do Estado. Em uma escada íngreme, mal iluminada e com degraus desiguais, ela faz mais uma de suas graças. "Olha a escada rolante: pisou, rolou."

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