Um mundo chamado metrô

Em SP, subterrâneo funciona como o pulso da cidade, microcosmo, palco para o encontro casual com pessoas de todas as esferas sociais

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

São 12h33 de uma quarta-feira e não há mais do que 15 pessoas no carro 2134 do metrô, um daqueles vagões novos com bancos coloridos, luzinhas brilhantes mostrando as estações e um chão todo pontilhado que, dependendo do humor do usuário, pode parecer um monte de chiclete mascado ou um céu digno de Pierre-Auguste Renoir. Um garoto assopra uma gaita, enquanto uma senhora de camisa lilás lê um livro e uma garota ouve música em seus fones de ouvido brancos. Outras tantas pessoas olham pela janela, absortas. Ninguém parece estar lá muito preocupado com algo além de seus livros, músicas ou os próprios problemas. Até que, de repente, um cachorro cinzento aparece correndo e latindo na plataforma.

"Pega, pô, pega", grita um funcionário do Metrô, enquanto seu colega sofre para acompanhar o cachorro. O vira-lata chega até a passar pela porta do vagão, mas é pego perto da senhora de camisa lilás. Por um momento, mesmo que por um brevíssimo instante, todos ali no carro 2134 levantam os olhos e sorriem. Sorrisos largos, algumas gargalhadas. E também olham para os lados, dividindo com a pessoa mais próxima a graça daquela cena - para logo depois voltarem a se enfurnar em suas vidas, seja para ler, ouvir música, lembrar dos problemas ou simplesmente observar o céu de Renoir.

Todo dia, 3,4 milhões de pessoas de todas as classes sociais passam pelo carro 2134 e pelos outros 768 vagões da frota do Metrô de São Paulo - mais do que a população do Uruguai. É um universo em que são percorridos mais de 50 mil quilômetros de trilhos, das 4h30 às 0h35, onde 1,5 milhão de quilowatt-hora é utilizado para movimentar os trens e onde se perdem mais de 60 objetos diariamente - de TVs e cadeiras de rodas a fogão e cama.

E todo dia, histórias como a do cachorro cinzento também se repetem, fazendo com que a distância entre os paulistanos diminua pelo menos um tantinho. Nesses momentos, o metrô se transforma praticamente numa vizinhança, uma região subterrânea autônoma, que faz São Paulo mais coesa. São justamente as risadas que surgem de repente, os "ois" e "tchaus" trocados com a pessoa do lado, os pisões no pé, os olhares tortos e toda sorte de gentilezas e grosserias que fazem daquele labirinto de túneis o bairro mais paulistano da capital.

Claro, isso não quer dizer que todas as viagens no metrô sejam felizes e engraçadas, muitíssimo pelo contrário. Às vezes é difícil encontrar algum tipo de organização, sanidade ou civilidade por ali - principalmente nos horários de pico, quando até nove passageiros dividem o mesmo metro quadrado. A sensação de confinamento abaixo do solo, por vezes opressiva, também faz com que o metrô funcione como o pulso da cidade, um microcosmo da capital, um palco para o encontro casual com pessoas de todas as esferas da vida. É essa espécie de cola urbana que une histórias de São Paulo, das mais ordinárias às mais absurdas.

A vida dos outros. "Para muitos, o metrô é uma espécie de extensão da própria casa, porque você fica naquele ambiente diariamente", resume Gustavo Pereira Gomes, um rapaz baixinho, de 18 anos, técnico em eletrônica que, de tanto gostar do subterrâneo, conseguiu, há seis meses, um emprego na manutenção da Linha 4-Amarela. A paixão vem desde os 5 anos, quando andou no metrô pela primeira vez, para ir até o hospital na Estação Clínicas - na época, a última da Linha 2-Verde. "Aí virou hobby, sabe, toda vez que eu ia ao metrô de manhã, nunca saía direto da estação. Parava, ficava ali na plataforma para ver o metrô manobrando, indo e voltando."

"Metrolinos". De fã, Gustavo agora é um dos 7 mil funcionários do Metropolitano, que cuidam desde a voltagem das subestações de energia até do recolhimento de 11 toneladas de lixo por mês. Ele é daqueles que sabem todos os detalhes da operação do Metrô, fazem visitas monitoradas pelos túneis, decoram as especificações dos carros e, ao entrar no vagão, sempre estendem a mão para cumprimentar o condutor - "conheço a escala inteira", diz o rapaz. Nesta última frase, a palavra "daqueles" está ali para afirmar que, sim, há dezenas de pessoas iguaizinhas, figurinhas carimbadas que tratam o subterrâneo como uma extensão de suas vidas.

É relativamente fácil encontrar os "metrolinos", como são conhecidos esses veteranos no Metropolitano. São experts na arte de pegar o metrô, sabem muito bem os pontos fracos e fortes do sistema e, claro, se aproveitam desse conhecimento. Só de conversar com os metrolinos já é possível conhecer melhor a fauna, os mitos, a etiqueta e os tabus do metrô. Por exemplo, os usuários normais podem ser classificados em algumas categorias bem particulares, como por exemplo o porteiro ("sempre parado perto das portas), o surdo ("nunca ouve os avisos para sair da porta") ou o eternamente velho ("não pode ver um banco especial que já vai sentando"). As estações também ganham denominações alternativas - "Estouro da Boiada", para as Estações Brás e Luz; ou "Labirinto", para a Estação São Bento.

Paquera. Há ainda vários segredos divididos só entre os metrolinos, como se fossem troféus ou algo do tipo - por exemplo, você sabia que há um buraco gigantesco na Estação D. Pedro que seria o projeto abandonado de outra linha? Ou mesmo que há uma plataforma não utilizada na Estação Paraíso, que serviria para a ramificação da Linha 1-Azul até o bairro de Moema?

Os metrolinos também têm toda uma cartilha com normas de boa vizinhança, uma espécie de legislação tácita, regras não escritas. Como: "nunca olhar diretamente nos olhos da outra pessoa por mais de cinco segundos", principalmente se ela for mais alta e forte que você. "Andar com a mochila nas costas", só se você quiser ganhar xingamentos e um apelido. Já "puxar conversa" também deve ser evitado nas estações centrais e nos horários de pico, quando a maioria está irritada. Nas estações mais afastadas, no entanto, a conversa rola solta, é possível até fazer amizades subterrâneas duradouras.

"Claro que dá para conhecer alguém interessante. Nem tudo no metrô é passageiro", brinca Daniel Leal, de 52 anos, 25 deles trabalhando como agente de estação. "Sempre vejo gente fazendo amizade, paquerando..." Daniel realmente entende os sinais de paquera de metrô, uma vez que conheceu sua mulher, Valdenice, numa sexta-feira de trabalho, há 23 anos. "Comecei a puxar papo, peguei o telefone dela, nos conhecemos, casamos um ano depois e somos felizes até hoje. No meio daquela confusão, achei minha cara-metade. É como um monte de gente fala, o metrô pode despertar amor ou ódio, depende só do jeito que você vê as coisas."

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