Um mercado persa ao lado do Tamanduateí

Primeiro registro de camelôs em São Paulo é de 1912, quando libaneses começaram a estender tapetes em botes enfileirados ao lado do rio

, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2011 | 00h00

 

O primeiro camelódromo de São Paulo era uma espécie de mercado persa às margens do Rio Tamanduateí. No início do século, por volta de 1912, a Rua 25 de Março ainda tinha a alcunha de "Rua de Baixo" quando sírios e libaneses abriam suas malas com mostras de tecidos contrabandeados. Mercadorias como tapetes e ervas medicinais também eram estendidas por eles em botes que ficavam enfileirados na beira do rio.

O burburinho causado pelo comércio dos "mascates turcos", como eram chamados, atraía gente de toda a cidade. Os libaneses faziam pagamentos parcelados e davam descontos como nenhum outro lojista da época. A região era a mais movimentada de São Paulo e passagem para quem ia do centro para a Mooca, na zona leste, ou vice-versa.

"O pagamento por prestação chegou em São Paulo com os camelôs libaneses e sírios. Eles usavam até mesmo códigos para demarcar a porta dos compradores que pagavam em dia. Como não sabiam o nome das cores, eles também vendiam tapetes na base da comunicação visual, por gestos", conta o historiador e urbanista Benedito Lima de Toledo, da USP. "Eram os "turcos da prestação"", acrescenta Toledo.

As barracas dos ambulantes sírios e libaneses aos poucos viraram lojas do comércio atacadista, principalmente de tecidos. Mas o costume de abordar os clientes nas ruas permaneceu, assim como a oferta de preços sempre mais baixos que os da concorrência. Com a chegada de portugueses, italianos e chineses, a partir de 1940, a Rua 25 de Março também passou a abrigar lojas de bijuterias e de miudezas.

Com o passar dos anos, surgiram ambulantes que vendiam a preços reduzidos as mesmas mercadorias das lojas da 25. Era comum ver moradores de áreas mais afastadas da zona leste gritando no meio da rua "olha a bola de gude, olha o tecido, olha o anel!" As mercadorias dos ambulantes tinham qualidade inferior. O apresentador Silvio Santos, por exemplo, vendeu canetas como camelô no centro da capital até o início da década de 1950.

Toledo avalia que a ocupação das ruas que se deu na capital a partir do contrabando de eletrônicos, no início dos anos 1980, não tem paralelo em nenhum lugar do mundo. "O centro de São Paulo tem espaço para a venda legal dessas mercadorias escoadas pelos ambulantes. É um atraso permitir a ocupação desordenada do centro com um comércio que não tem obrigação social nenhuma. As autoridades precisam criar um ambiente no comércio propício para a entrada dos clandestinos na formalidade", avalia o historiador. Ele vê como positiva a repressão adotada pela Prefeitura em parceria com a Polícia Militar contra os informais. "Camelô também é questão de segurança pública", conclui Toledo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.