Um Le Corbusier inédito para SP

Desenhos nunca antes divulgados de biblioteca para a casa do investidor Paulo da Silva Prado em Higienópolis integram mostra que será aberta hoje

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h03

Por muito pouco, São Paulo não tem um exemplo construído da arquitetura de Le Corbusier (1887-1965). Desenhos dessa obra, uma biblioteca projetada para um casarão de Higienópolis, são uma das revelações da mostra Le Corbusier - América do Sul - 1929, que será inaugurada na noite de hoje e terá abertura ao público a partir de amanhã, com entrada grátis, no Centro Universitário Maria Antonia.

A exposição traz 26 originais de Le Corbusier - que pertencem à francesa Fundação Le Corbusier e muito raramente são exibidos ao público -, produzidos em sua viagem de 74 dias pela América do Sul, de setembro a dezembro de 1929. Na época, ele passou por Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil - foram 16 dias em São Paulo e 4 no Rio. "São desenhos que têm valor inestimável, não só como desenho, como objeto de arte, mas também como testemunho da mudança dos conceitos e ideias do Le Corbusier frente ao impacto de ter conhecido a paisagem sul-americana", comenta o arquiteto Hugo Segawa, professor de Arquitetura Contemporânea da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e curador da mostra, em parceria com o historiador da arte Rodrigo Queiroz.

A viagem à América do Sul fez Le Corbusier se tornar menos rígido. "Ele percebeu que a natureza não é cartesiana, que o universo não é feito só de referências racionalistas", comenta Segawa. "Quando ele retornou à Europa, já tinha se transformado em outro homem."

Em São Paulo. Durante os 16 dias que o arquiteto passou na capital paulista, ele pôde dialogar com a nata da "intelligentsia" local. Aproximou-se dos artistas modernistas, como Tarsila do Amaral (1886-1973) - a quem acabou dedicando um desenho, Perspectiva Aérea do Plano para São Paulo -, Oswald de Andrade (1890 -1954), Mário de Andrade (1893-1945) e outros. "É interessante porque, apesar de ele ter ficado aqui quatro vezes mais do que no Rio, sua biografia, no mundo todo, nem sequer menciona essa passagem por São Paulo", afirma Segawa.

Aqui, além de se aproximar dos modernistas, também se reuniu com o então prefeito José Pires do Rio (1880-1950). E projetou uma obra. "Isso é uma revelação inédita da exposição. Ele fez um projeto de uma biblioteca anexa a uma residência do bairro de Higienópolis", conta Segawa. Tratava-se da casa do investidor, cafeicultor e escritor Paulo da Silva Prado (1869-1943), importante mecenas do Modernismo. "Infelizmente, o projeto jamais foi executado."

Se fosse, seria o único exemplar de construção de Le Corbusier no Brasil. Na América do Sul, sua única obra executada é uma casa em La Plata, na Argentina. Para que os visitantes possam imaginar como seria essa biblioteca, a exposição terá uma maquete desse projeto (uma das cinco maquetes expostas, aliás), construída a partir de cinco desenhos do autor - todos também integrantes da mostra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.