Um gênio de ritmo inconstante

Em apresentação que só engrenou na reta final, o grande Stevie Wonder não mostrou todos os seus superpoderes

ROBERTO NASCIMENTO , ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2011 | 03h01

Muitas vezes, parece que o diálogo entre público e artista se passa apenas nos momentos em que o cantor dita uma melodia e os fãs a ecoam. Isto é verdade em shows programados, como os que fizeram Rihanna ou Katy Perry no Rock in Rio. Mas a troca de energia durante toda a apresentação, os gritos de reconhecimento nos primeiros compassos de um sucesso, os surtos de fanatismo encadeados por um gesto do artista, o coro do refrão, são o fermento de qualquer show mais improvisado, tão essencial à progressão da noite quanto o acompanhamento da banda.

No show de Stevie Wonder, que encerrou o quarto dia do festival, isso ficou nítido, pois foram poucos os momentos em que ele e a plateia se encontraram. Havia boas intenções de ambos os lados. Stevie subiu ao palco enérgico, tocando seu keytar (teclado-guitarra) e cantando com autoridade o refrão de How Sweet It Is to Be Loved by You. A plateia, que lotou o festival só no fim do dia, agradeceu, caindo no baile. Mas o poder de catarse inerente à voz de Stevie, o anseio pela redenção que vibra lá no fundo de sua alma gospel, não moveu as montanhas de Jacarepaguá. E ele fez um bom show, digno de um grande entertainer, mas aquém de seus superpoderes. A set list leva parte da culpa, pois se já havia um vão entre adultos que cresceram com Stevie e a moçada que o admira como um ídolo vintage, este ficou maior à medida que as baladas do cantor, lindas porém entediantes para quem esperava duas horas de puro suingue no Rock in Rio, dominaram a programação. Em meio a clássicos românticos como Overjoyed ( magnífica, diga-se de passagem), Stevie tocou Garota de Ipanema, Você Abusou, de Antonio Carlos e Jocafi, e Take the "A" Train, cantando "Stevie loves Brasil" em vez da letra original. Para quem procurava efervescência, foi uma ordem para sentar na grama sintética e curtir o show ao estilo piquenique. Stevie estava radiante, como sempre, mas em algum momento suas baladas desligaram o interesse geral. Quando voltava ao suingue e pedia para a galera cantar, as respostas já eram anêmicas. Havia espaços nas áreas mais próximas ao palco, algo inconcebível em qualquer outro dia do festival. Na reta final do show, Stevie embarcou em uma série de hits empolgantes, como I Wish, Signed, Sealed, Delivered, Sir Duke e Superstition. Mesmo assim, não houve muita comoção e Stevie deixou de esticar as músicas, como sempre faz.

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