Um fazendeiro na região mais povoada da cidade

Goiano chegou há 20 anos com o plano de ser cantor de churrascaria. Acabou virando o 'rei do gado' na zona sul paulistana

DIEGO ZANCHETTA, TIAGO QUEIROZ, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h03

Ele veio adolescente do interior de Goiás para tentar ser cantor de churrascaria, há 20 anos. Hoje, aos 40, é o "rei do gado" na região mais povoada de São Paulo. Com linguajar rural nato, berrante em punhos e um cão mastim napolitano como companheiro, Flávio Rangel dos Santos, o Goiano, passa o dia na zona sul paulistana, onde tem 138 cabeças de gado, 38 porcos e 15 cavalos, incluindo um potro Andaluz recém-comprado por R$ 15 mil.

O fazendeiro da Capela do Socorro anda de caminhonete zero-quilômetro, transita no meio de autoridades, mas mantém costumes simples da roça. Almoça entre os peões que o ajudam a retirar leite de suas vacas pela manhã e não tira a roupa de vaqueiro nem quando precisa "ir para a cidade". Na parte da tarde, Goiano sai para vender queijos de fabricação própria para mais de 30 mercadinhos da região.

"Não foi fácil montar esse pastão cheio de bois. Quando cheguei de Aparecida do Rio Doce, não conseguia tocar violão direito, me dei mal cantando. Meu sonho era ser cantor e peão de rodeio. Até que a coisa apertou e tive a ideia de começar a criar dois bezerrinhos em um lugar da Represa do Guarapiranga que havia secado durante um inverno", conta Goiano, em um pasto arrendado às margens do reservatório.

História. Órfão de mãe aos 7 anos e de pai aos 13, ele viveu como ajudante de donos de fazendas em Goiás até completar 20 anos. "Meu irmão estava em São Paulo trabalhando em uma montadora e eu não aguentava mais cuidar de pasto e ficar sem dinheiro", recorda. "Fiquei louco pela cidade, tinha um monte de restaurante. Só não sabia que voltaria para o pasto, e ainda mais como patrão."

Com as primeiras cabeças de gado, Goiano passou a fornecer carne para pequenos açougues da zona sul. No fim dos anos 1990, comprou um sítio no Jardim Floresta, bairro pobre e superpovoado, cheio de ladeiras, com milhares de barracos sobrepostos e campinhos de areia. Na mesma periferia, ele conseguiu emprestar os pastos da fazenda de uma americana, cujas terras foram herdadas do avô dinamarquês. Além da pequena boiada e dos cavalos, ele tem "uns 20 carneiros e uns 12 bodes".

Ao entrar na propriedade onde o fazendeiro passa o dia, a sensação é de se estar em um oásis muito distante da maior metrópole da América do Sul, e não a 12 quilômetros da Marginal do Pinheiros. "Meu dia a dia aqui é igual ao de qualquer pecuarista lá da minha terra. Mas tenho a vantagem de estar nesta cidade linda", diz Goiano, sem saudosismo da terra natal.

No caminho para os pastos onde ficam seus bois e cavalos, ele mostra orquídeas raras, tenta chamar pequenos bugios que "conversam" na mata e fala mal de quem tenta caçar tucanos para criação doméstica. Na imensidão verde da fazenda, com a Guarapiranga e revoadas de pássaros ao fundo, a paisagem parece transportar para qualquer refúgio ecológico no meio do Pantanal sul-mato-grossense.

Preservação. Mas o DNA paulistano da fazenda logo surge no meio do mato, quando Goiano aponta para antigos criadouros de porcos do Frigorífico Éder, preservados quase às margens da represa. "Está tudo intacto ainda. Ninguém mais pode mexer nesses criadouros. A Polícia Ambiental proibiu porque está perto da represa."

Goiano ainda mantém outras cabeças de gado em terras arrendadas de sítios na região de Parelheiros. Na cidade de poucos espaços livres, ele ainda quer duplicar a boiada. "Tem muito pasto vazio por essa cidade ainda, é só procurar."

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