Um dia depois do fim, o desmonte do Cine Belas Artes

Equipamentos das salas de projeção foram doados à Escola de Comunicações e Artes da USP e as poltronas de veludo, vendidas

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Depois de apagadas as luzes à meia-noite da última sexta-feira, o Belas Artes reabriu. Mas ninguém pagou ingresso para ver a cena de carregadores, soldadores e encaixotadores levando os restos de um antigo cinema, arrancado de uma esquina muito paulistana. Foram-se poltronas, tapetes, máquina de pipoca, projetores, cartazes. Restaram as histórias que todo mundo tinha para contar do Belas Artes.

Era impossível nas últimas semanas passar sem ouvir um "causo", um relato, uma memória - não só de um filme visto ali, mas dali, do próprio lugar. De primeiros encontros furtivos a rompimentos, de ideias que surgiram durante uma sessão a amizades na fila da bilheteria, de maratonas de filmes a cafés da manhã tomados nos Noitões. Agora, nas dependências do Belas Artes reina o silêncio desejável em uma sala de cinema. Com a diferença de que esse foi, talvez, o silêncio mais evitado da cidade.

Nenhum cinema prestes a fechar teve agonia tão barulhenta e foi tão defendido por gente tão diferente - de estudantes com cartazes nas mãos a integrantes do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (Conpresp), que têm na manga a carta do tombamento para ser ou não usada até abril. Quase sempre com um livro na mão e uma conversa despretensiosa com alguém na fila, o público do cinema compareceu - o movimento cresceu perto dos 30% no último mês.

Havia quem quisesse preservar a própria história, a do cinema, da cidade, de uma rua - só na Consolação já existem quatro defuntos, agora cinco: os cines Ritz, Odeon, Rio (depois Teatro Record) e Trianon, que depois virou Belas Artes, que agora virou nada. "Para quem já olhou aqui de cima e viu tudo lotado, agora é um vazio estranho", diz o projecionista Antônio Vidal, que tinha 20 anos de Belas Artes.

Hoje, os equipamentos das salas de projeção já devem estar em novo hábitat: a Escola de Comunicações e Artes da USP, para onde foram doados. As poltronas de veludo vermelho foram vendidas. Daqui para o fim da semana, não deve sobrar mais nada. A ordem é se desfazer de tudo, mesmo que o cinema renasça. "Aí a gente recompra", disse André Sturm, na noite de quinta.

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